Referendo

No domingo vai haver um referendo sobre a despenalização do aborto. É o segundo, dado que o primeiro, há uns anos, foi marcado para um domingo de verão e ninguém foi votar.

Este é um daqueles temas que dá sempre origem a grandes discussões e por isso qualquer comentário sobre o assunto resulta geralmente em grandes discussões e potencialmente insultos também. Mas tenho andado a pensar nisso e achei que estava na altura de escrever sobre o assunto.

Em primeiro lugar nunca tive de considerar seriamente essa opção. Aos 18 anos posso ter tido um ou dois sustos e umas semanas de incertezas, como acontece a muita gente, mas nunca cheguei a ter uma gravidez indesejada e como tal a questão, na prática, nunca se colocou.

No entanto, se o aborto fosse legal e eu ficasse grávida durante a adolescência, o que nunca seria por mera irresponsabilidade mas sim por falha do meio anticoncepcional, então sei que consideraria seriamente essa hipotese. Não digo que chegasse a faze-lo, é uma coisa que não posso saber sem passar por isso, mas pensava nisso, sem dúvida. Mesmo hoje, depois de ter perdido o primeiro filho, ter tido grandes dificuldades em engravidar ambas as vezes e saber que fazer um aborto pode contribuir para infertilidade futura, sei que na altura ter uma criança antes de ter hipotese de ir para a faculdade e arranjar um emprego, ver-me dependente dos meus pais por tempo indefinido, etc, seria para mim uma situação insustentável. Isto porque acho que é preciso querer ter um filho.

Cuidar de uma criança não é algo que possa ser visto de forma idealizada. É dificil, requer tempo e paciência e principalmente um grande investimento no bem estar da criança. Ou seja, precisamos de crescer antes de ser pais e só porque o corpo está biologicamente preparado não quer dizer que seja muito desejável ter uma gravidez antes dos 20 anos, muito menos antes dos 15 como acontece tantas vezes. Quanto maior a falta de informação no meio em que o adolescente vive, mais provavel é uma gravidez indesejada.

Posto isto, digo então que não considero o aborto algo incompreensível. Mas também não digo que não é nada de especial. É de facto uma escolha racional entre vida e morte de um ser que foi criado a partir das nossas células e isso nunca pode ser uma escolha fácil. Acho que quem opta por esta escolha está geralmente numa situação algo desesperada e o próprio procedimento causa um certo trauma.

Há uma série de coisas nesta discussão que me irritam. Em primeiro lugar podem acontecer, naturalmente, toda uma série de problemas durante uma gravidez que resultam num feto morto. Fiquei a saber da pior forma possível que mesmo quando corre tudo bem quase até ao fim não há garantias. A morte é uma coisa dolorosa mas natural e uma mulher pode ter uma luta mental enorme a tentar decidir se leva a gravidez até ao fim e depois acaba por ter um aborto espontâneo pouco tempo depois. Então qual é a diferença?

Os religiosos dirão que um dos casos é vontade de Deus e o outro é um crime. Eu respondo que provavelmente já se matou mais gente em nome de Deus do que foram feitos abortos.

O ponto de vista mais cientifico defende que os abortos espontâneos são muitas vezes casos de fetos com malformações que são rejeitados pelo corpo. Mas nem todas as gravidezes que terminam mal são de fetos com problemas portanto não deixa de existir uma certa arbitrariedade.

O segundo ponto é que para uma gravidez correr bem isso requer bastantes cuidados – de alimentação, isenção de produtos toxicos tais como drogas, tabaco, alcool, café, medicamentos, radiação, etc, e ninguém pode obrigar uma mulher a ter estes cuidados.

A questão no meio disto tudo é que sim, existe vida desde a fecundação mas essa vida nem sempre tem condições de sobrevivencia e para além disso um feto não é considerado um cidadão até nascer. No nosso caso, que tivemos um nado-morto às 39 semanas, foi necessário fazer funeral porque era considerado de termo mas não aparece sequer nome no documento do hospital. Ou seja, não foi sequer considerado como um nascimento para as estatisticas.
Acho que a questão central neste caso é sempre a mesma: a mulher tem ou não o direito de decidir o que faz com o seu corpo? É que nesta discussão, quem está cegamente a favor da defesa dos direitos do feto está a ignorar os direitos da mãe. Então só lhes interessa os seres humanos até nascerem? E depois? Perdem a piada?

Nos Estados Unidos acontecem frequentemente ataques a clínicas que efectuam abortos e matam os médicos que os efectuam. Como é possivel dizer que se é a favor da vida e depois andar a matar pessoas? Como diz o George Carlin, será que os fetos só têm direitos desde que não se tornem médicos?

E porque é que esta maltosa toda armada em defensores da vida não começam a adoptar crianças abandonadas, que infelizmente continua a existir, em muitos casos graças à impossibilidade de efectuar um aborto em segurança no nosso país. Acham preferível que nascçam crianças de mães viciadas em droga, com graves problemas de saúde? Quem é que se preocupa com estas crianças?

E aposto que muitas destas pessoas que estão plenamente de acordo com a lei que permite que uma mulher seja presa por efectuar um aborto são capazes de afogar gatos e cães à nascença. Portanto a defesa da vida é só se for vida humana.

Nós matamos animais para comer, usamos sapatos de cabedal e somos capazes das maiores atrocidades. As pessoas são territoriais e odeiam-se umas às outras e no entanto convencem-se que estão a ser muito nobres e defensores da vida. Parece-me tão contraditório.

Outra questão importante é o dinheiro – quem tem dinheiro vai a outro país fazer o aborto e ninguém sabe de nada. Não ficam registos cá e têm bons cuidados de saúde. Quem não tem dinheiro arrisca a vida a fazer um aborto à antiga, sem quaisquer condições e por vezes com complicações graves. E depois vão ao hospital porque a hemorragia não pára e 24 horas depois estão na prisão, antes sequer de ter tido tempo de recuperar. Simpático, não é?
Mas no fundo, nada disto interessa. Porque o está a votação é simplesmente isto: uma mulher deve ser presa por fazer um aborto?
Não se está a falar em tornar legal o aborto nem em criar clínicas nem coisa nenhuma. Trata-se simplesmente de rever uma lei que coloca estas mulheres ao mesmo nível de criminosos perigosos quando só estão eventualmente a fazer mal ao seu proprio corpo e não podem ser consideradas de forma alguma um perigo para a sociedade.
O resto são discussões filosóficas que não interessam para este caso e as campanhas do ‘não’ andam a manipular as pessoas nesse sentido. E trata-se de uma manipulação muito baixa e que me mete imensa raiva. Andam a usar criancinhas com frases decoradas que nem sequer sabem bem a que se referem. Pessoalmente considero isso abuso de menores, muito mais grave do que aquilo que estão a protestar.

E de um ponto de vista mais pessoal, meterem-me na caixa do correio folhetos com imagens de fetos e aquelas legendas tipo ‘não deixem que me matem’, depois do que eu passei, apetece-me imediatamente descobrir onde vivem os gajos que fazem isto e ir lá resolver o grave problema que é o facto de terem nascido.

No fundo acho que o Estado não deveria sequer poder ter poder de decisão sobre esta questão. A escolha deveria ser da mulher, do pai, se este estiver interessado na questão. É uma questão pessoal, intima, privada, que afecta a vida destas duas pessoas e mais ninguém.

O mesmo poderá ser dito para os casamentos homosexuais e outras violações de direitos que as leis continuam a praticar. A partir do momento em que o casamento deixou de ser religioso e passou a ser civil, deveria ser um acto possivel de praticar por quaisquer dois individuos que pretendam viver em comum.

Afinal ou há separação entre estado e igreja ou não há.

Em Portugal, infelizmente, não há.

6 Comment

  1. Ena rapariga, este post é pra aplaudir de pé!
    Recebe o meu forte abraço, concordo contigo em todos os teus pontos de vista e argumentos…

    Só uma adenda relativamente ao dinheiro dos impostos que supostamente irá para as “clínicas de aborto”; Eu não me lembro de querer contribuir para os estádios de futebol nem para a Igreja, mas os meus impostos também foram aí aplicados. Acho melhor ser aplicado em cuidados de saúde (ou estamos a falar de outra coisa?!)
    Parece-me que tudo isto é duma extrema hipocrisia e duma grande falta de sentido de liberdade.
    Um referendo que nem tem razão para ser feito.

  2. Dee, concordo com tudo o que diz acima.
    O nosso desacordo noutro blog deveu-se apenas ao facto de manifestar a sua vontade de querer limitar a idade das pessoas que têm direito a votar por entender que os velhos são mais hipócritas do que os jovens. O que, continuo a afirmar, é um disparate.
    O seu marido preferiu não publicar a minha explicação. Pode fazer o mesmo. É-me indiferente. Escrevo para si e não para as outras pessoas que por aqui passem.
    Esperemos que o SIM ganhe!

  3. Olá, primeiro devo dizer que escreves muito bem. O que para mim é evidente mas dificil de pôr por palavras, pelo contrário consegues escrever tudo o que eu acho. Eu vou votar no sim. Tenho 30 anos e nunca se propocionou ter ficado grávida, e apesar de não estar ainda independente dos meus familiares, não faria um aborto. Mas penso muito na questão de o feto por ventura tivesse ma-formações e penso se eu não teria coragem para o abortar? Acho que sim teria. Não sei até que posso estaria preparada para enfrentar a situação de um filho com problemas, não por vergonha, mas pela falta de tudo neste portugal. Onde estão as condições para crianças com problemas? Não as há. E até que ponto eu não estaria a ser cobarde a ponto de deixar que um ser viesse ao mundo para ser olhado de lado. Sou a favor da despenalização, por forma acabar com a tragédia que é saber pelas noticias que mais um bebe foi encontrado morto.

  4. melusine: quando falo de dinheiro não me estou a referir a impostos. Falo de pessoas com capacidade económica para poderem vajar a outro país e fazer aquilo que não se pode fazer cá.
    Acho que o aborto se deveria poder fazer em hospitais ou clínicas, obviamente avaliando caso a caso e com acompanhamento psicológico e eventualmente de uma assistente social que possa informar a mulher das opções que tem para alem do aborto, mas isso ainda deve estar muito longe de acontecer porque os próprios médicos não estão muitas vezes interessados em que esse procedimento passe a fazer parte das suas funções. O que quero dizer é que algumas mulheres que fazem um aborto sabe-se lá como e a coisa corre mal, têm mesmo assim medo de recorrer aos hospitais depois porque sabem que podem ser presas. Quem não tem dinheiro continuaria a não conseguir aceder a clínicas privadas mesmo que estas passassem a existir.

    Gabriela: Eu não me envolvo em discussões. Aquilo que faço quando alguém faz um comentário mais negativo ao que disse é tentar explicar melhor a minha posição e esperar que a outra pessoa seja inteligente o suficiente para compreender que as pessoas são todas diferentes e pensam de forma diferente. Acho um bocado baixo descer a insultos simplesmente porque não se concorda com o que outra pessoa diz mas está no seu direito e a decisão de retirar o seu comentário foi inteiramente do Pedro.

    No entanto tenho o direito à minha opinião e mantenho o que disse. Para quem não sabe: acho que a votação neste assunto deveria ser limitada a mulheres em idade fértil e por arrasto, homens da mesma idade. Não que seja geralmente a favor de retirar direitos aos cidadãos mas neste caso sinto que há uma grande percentagem de pessoas na faixa etária acima dos 60 anos a fazer pressão para que as mulheres em idade fertil continuem com os seus direitos reduzidos quando isto é uma questão que já não lhes diz respeito. É claro que a culpa é da religião e não da idade, mas na prática é assim que as coisas funcionam.

    É preciso ter em consideração que só passou a existir registo civil em 1911 e antes disso todos os casamentos em Portugal eram obrigatoriamente feitos pela igreja. Se duas pessoas tinham um filho fora do casamento e depois se queriam casar tinham de ser submetidas a uma espécie de julgamento e era proclamada uma sentença que lhes dava ou não autorização para o casamento. Ter um filho fora do casamento era considerado crime para a igreja. Isto é apenas mais um exemplo da mesquinhez da religião, uma vez que a posição da igreja sobre o aborto é bastante conhecida e não vale a pena repeti-la.

    Temos que ver que ainda nem passaram 100 anos desde essa data e alguns destes procedimentos que estes procedimentos continuaram a ocorrer. Somos um país predominantemente católico e a religião tem tido uma influência brutal na forma de pensar das pessoas. Qualquer pessoa que tenha crescido antes dos anos 60/70 teve estas influencias fortemente na sua educação e isso ditou em muito a forma com ainda hoje pensa. Os costumes e a forma de pensar demora muito tempo a evoluir e a ideia de moralismo formada pela religião está a ser novamente uma forma de atirar poeira para os olhos das pessoas sobre esta questão.

    E pronto. É a ultima vez que me pronuncio sobre o assunto.

    Susana: Realmente o caso das malformações graves é uma das poucas alturas no nosso país que que é permitida a interrupção da gravidez. E há pessoas que mesmo sabendo que vão ter uma criança com malformações decidem continuar com a gravidez. É uma escolha pessoal e acho bem que a pessoa a possa fazer. A questão é sempre essa – poder ter a escolha porque quem vai passar o resto da vida a tratar daquela criança é a mãe. Não é o estado e não são as pessoas que se divertem a ir para a rua manifestar sobre este assunto.

  5. Fantástico post. Concordo com tudo o que disseste. Os argumentos medievais do “não” simplesmente cansam-me. Estou farta de discutir, principalmente com pessoas cuja opinião está colada à religião e não conseguem ser realistas. Estou a ficar negativamente surpreendida com a quantidade de jovens que vai votar “não”. Com isto tudo só espero que o “sim” consiga ganhar. A ver vamos.

  6. Cheguei tarde mas li este teu post com o mesmo interesse que leria antes do referendo. Este post é bravíssimo! Muito, muito bom! Subscrevo letra a letra. 🙂

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