Furiosa

O Tiago aprendeu a subir para o carrinho de passeio quando quer ir à rua. Quando fez isso esta tarde eu agarrei na bola e levei-o ao campo de jogos que existe aqui perto. Ele estava feliz da vida a correr de um lado para o outro quando senti uma dor no braço esquerdo. Olhei para o chão, onde o objecto que me tinha atingido caiu e vi que era uma daquelas pilhas ciculares achatadas do tamanho de uma moeda de euro. Olhei para cima e vi que o projéctil só podia ter vindo de um grupo de miúdos de uns 10-12 anos que estava sentado na praceta que fica acima do campo. Aliás, eles nem tentaram disfarçar já que estavam a olhar e a rir-se.

Fiquei imediatamente furiosa e pronta a atacar. Afinal podiam ter acertado no Tiago o que seria suficiente para eu lhes arrancar os bracinhos.

Agarrei no Tiago e fui ter com eles. Perguntei quem tinha atirado aquilo e, como em qualquer grupo a reacção foi ‘não fomos nós’. Um deles ainda começou ‘se calhar foi de um dos prédios’. Eu estava cada vez mais irritada mas com o Tiago nos braços não podia fazer nada, o que só serviu para aumentar a minha irritação. Fui-me embora com algumas ameaças vagas sobre chamar a polícia e como estavam a fazer um excelente treino para criminosos – patético, eu sei – e regressei a casa com visões de voltar lá com o nosso taco de softball ou algo pior.

Para me acalmar liguei ao Pedro. Não ajudou muito mas deu-me tempo para cimentar a noção de que nestes casos não há mesmo nada a fazer. Eles são menores e por mais que se comportem como bestas se eu fizer alguma coisa o problema será sempre meu e não deles.

A única coisa que poderia tentar fazer era descobrir quem é que são os pais deles, mas como é obvio isso não é tarefa fácil e de qualquer forma não iria resolver grande coisa.

Eu sei que é normal as crianças portares-se mal, especialmente em grupo. Mas eu que sempre fui vítima de perseguição de grupos destes não consigo deixar de sentir que em algum ponto da minha vida deveria ganhar o direito de começar a defender-me ou a vingar-me de ataques directos. É incompreensível ter de aceitar, engolir e não fazer nada porque ‘são crianças’. A verdade é que se me tivessem acertado num olho ou na cabeça do Tiago podiam ter feitop estragos graves e nem sequer pensam nisso. Limitam-se a rir e a continuar o seu dia como se nada fosse.

E eu fico aqui a fritar com o impulso de voltar lá abaixo a cada 10 segundos, como se ganhasse alguma coisa com isso. Só espero que os miúdos apanhem montes de porrada em casa mas provavelmente nem isso. O mundo é injusto.

2 Comment

  1. Eu acredito que nem todas as “children are the future”. Aliás, basta tentar ir passear para a Ribeira do Porto e levar com um projectil nas costas para me lembrar que estes idiotas em miniatura que acham que vão ser o Cristiano Ronaldo e não precisam de educação (tanto a escolar como a social) existem. Eu, tal como tu, fico em brasa, porque, tal como tu, fui massacrada na escola e gostava de poder fazer alguma coisa. Mas desde já te digo que não adianta falar com pais, com sorte eras insultada do piorio, isto se não fosses agredida por ousares intrometer-te na educação deles. Infelizmente fazem um terrível trabalho a dar educação aos filhos mas quem lhe faz mal os meninos, nem que seja merecido, é o inimigo.
    Claro que só de pensar naqueles idiotas na ribeira fico em brasa, e claro que me apeteceu partir-lhes os dentes, mas numa zona em que são as próprias mães que chamam “filho da p***” aos filhos no meio da rua, achei que era melhor não fazer nada. É horrível sermos reféns do medo de represálias. Isto de serem crianças é desculpa para muita coisa, e se a má educação continua assim, e as agressões e violência são a fonte de divertimento, as notícias de assaltos e violência que temos visto nas últimas semanas neste país vão ser pequena amostra. Pode parecer exagero, mas há coisas que ultrapassam a mera brincadeira, e são violência feita conscientemente e quando aprendemos que nos safamos e não há consequências, a tendência é sempre fazer mais e pior.
    Quando se é agredido, é difícil ver inocência e pensar “coitadinho, não tem culpa”. Pode não ser a coisa correcta de se dizer, mas não vamos estar com hipocrisias, esses miúdos mereciam levar um bom safanão.

  2. Sim, Rita, concordo plenamente. Apesar de acreditar que se deve proteger as crianças, a filosofia actual que defende que um bom chapadão é abuso de menores é absurda. Há por aí muita gente a precisar de umas palmadas bem aplicadas nem que seja para chamar a atenção. Especialmente quando já têm idade e tamanho para saber perfeitamente quando estão a ser umas bestas.

    E se os pais não os educam então é o nosso dever social de o fazer. No mínimo se voltar a acontecer algo semelhante vão ouvir um sermão de duas horas sobre as consequencias da violencia. Pode não fazer nada mas pelo menos vão apanhar uma grande seca, o que me dará imenso prazer. The word is mightier than the sword and all that.

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