O susto

Na segunda feira depois de almoço fui-me esticar um bocadinho na cama a ler um livro antes de me atirar novamente às tarefas domésticas e verificar o estado das encomendas. Assim que me sentei tocaram à porta. Como a barriga já começa a pesar um bocadinho e a cama é baixa, é super irritante ter de me levantar outra vez assim que acabei de me sentar, mas lá fui. Quando cheguei ao intercomunicador perguntei quem era mas ninguém respondeu e ouvi a porta do prédio a abrir.

esperei um bocado para ver se sua alguém no elevador, mas como não ouvi nada voltei para o quarto. Pensei que seriam vendedores a vir bater às portas todas e resolvi ficar quietinha e ignorar. Passado um bocado lá começam a tocar à campaínha. Como já não me apetecia levantar outra vez deixei-me ficar e esperei que se fossem embora mas continuavam a tocar, algo que achei muito estranho. Pela insistencia comecei a ficar um bocado desconfiada – será alguém que conheço e que não avisou que vinha cá? Será a Augusta que perdeu a chave e resolveu vir à segunda para compensar a falta da quinta passada? Comecei a levantar-me e ouvi o barulho da fechadura. Quando dei a volta à cama e abri a porta do quarto dei com uma gaja no meu hall de entrada, numa pose muito furtiva de quem está a ver se ouve algum barulho antes de começar `procura de coisas para meter no bolso. Atrás dela, na escada, estava outra que não cheguei a ver bem.

Apesar da surpresa de ter alguém dentro da minha casa, aquilo que era óbvio para mim era que não conhecia aquela tipa de lado nenhum. Era morena, nova – à voltas dos 20s talvez, magra, vestida de jeans e t-shirt justa rosa vivo, com o cabelo ondulado preso em rabo de cavalo. A outra não vi bem. Só sei que também tinha o cabelo ondulado, comprido e solto e é possível que tivesse alguma coisa na mão mas sinceramente acho que só uma sessão de hipnose para me lembrar de mais pormenores. A minha primeira reacção foi de raiva. Abri com um ‘que raio é que estás a fazer na minha casa’ a plenos pulmões que teve a reacção desejada. Ambas sairam disparadas pela escada abaixo e isso deixou-me ainda mais furiosa. Fui a correr atrás delas a chamar-lhes tudo o que me lembrei e a dizer que ia chamar a polícia. Depois tive um momento de clareza e parei. Não queria arriscar-me a ficar trancada fora de casa porque não tinha chave nem o jeitinho daquelas vacas nojentas para abrir portas alheias sem elas. Voltei a casa e fui buscar a chave antes de voltar a sair para a escada. Fui espreitar e vi que já estavam a chegar à entrada do prédio. Vi também a vizinha de baixo a espreitar, que deve ter ouvido a gritaria e não resistiu à curiosidade, mas odeio a mulher de tal forma que não me apeteceu ter que parar para falar com ela.

Voltei para casa e liguei ao Pedro e depois à polícia. Disseram que mandavam cá alguém pelo que tive de ligar à Alex a dizer que afinal não podia ir ter com ela como estava combinado. Como estava à espera que chegassem os polícias, agarrei no taco de softball e desci as escadas até à entrada do prédio para ter a certeza que elas não tinham voltado a entrar. Não tinha grande vontade de as encontrar pelo caminho mas não ia deixar que andassem por ali a tentar entrar noutra casa qualquer. Quando me certifiquei que a escada estava vazia voltei para casa e esperei.

Passado pouco tempo chegaram três polícias e voltei a explicar a história toda. Costumo deixar a porta trancada mas hoje fui fazer umas compras e ao voltar cheia de sacos pesados esqueci-me de trancar a porta pelo que tinha sido fácil de abrir. Eles examinaram a porta e a fechadura mas não tinha nada de estranho pelo que pediram a descrição das mulheres, disseram que iam dar uma volta pela zona e que não podiam fazer muito mais. Como nada chegou a ser roubado nem acabou de forma violente acho que não é uma situação considerada como grande prioridade nem há grande coisas que se pudesse fazer –  não iam mandar alguém tirar as impressões digitais da campaínha só por isto.

O Pedro veio para casa pouco depois e eu ainda estava um bocado nervosa, não tanto pelo que aconteceu mas pelo que a minha imaginação me diz que podia ter acontecido – se em vez de mulheres fossem homens que não se assustassem tão facilmente ou se as tipas estivessem armadas, a coisa podia ter sido muito pior.

Mas pronto, não será tão cedo que volto a esquecer-me de trancar a porta de casa.

Ainda fui enviar uma encomenda e quando saí de casa notei que estava a olhar à volta com muito mais atenção para ver se dava com as mulheres que entraram na minha casa.

Quando fui buscar o Tiago, pouco depois, lá consegui descontrair um bocado ao contar a história à Alex e ao Mike. Depois fui um bocado a csa deles para os ajudar com umas traduções e o Tiago brincar um bocadinho com o Eddie. O Tiago adorou o quadro de giz o que me diz que tenho de lhe arranjar um 🙂 Também ficou fascinado com a saida de água do frigorífico mas isso já estamos a considerar comprar brevemente porque o nosso frigorífico é muito bom mas já tem 11 anos, está com péssimo aspecto e já não tem espaço de congelação suficiente.

7 Comment

  1. Bolas

    Uma boa ideia seria trocar a fechadura por uma que não seja tão fácil de abrir…

  2. A fechadura, quando está trancada, não é fácil de abrir. O problema foi mesmo ter-me esquecido de trancar a porta à chave quando entrei 🙂

  3. Jorge: falei com vários especialistas em portas de segurança e não existem fechaduras que não se abram em segundos com cartões, radiografias, calendários…

    Se a porta estiver só no trinco, abre-se. É por isso que é cada vez mais importante ter a porta trancada mesmo quando se está em casa.

  4. Bem, que susto! Ainda bem que estás ok, e conseguiste corrê-las para fora de tua casa só com a força das palavras. A minha imaginação também me leva aos mesmos cenários que descreveste e sinto um alívio enorme que as coisas tenham sido como foram e não piores. De facto, agora vai ser muito difícil esqueceres-te de trancar a porta, e isto não voltará a acontecer (cruza dedos).

  5. Fiquei arrepiada quando li este post! Isto é sem dúvida um abre-olhos.

    Quando saio de casa tranco sempre a porta, mas nunca o faço quando estou em casa. Podes ter a certeza que vou passar a trancar daqui em diante!

  6. E que tal espalhar por aí a descrição das mulheres, para ver se elas são apanhadas?
    Os meus pais foram assaltados por três mulheres, que mesmo tendo levado pouca coisa, conseguiram destruir a casa toda e os puserem em estado de alerta permanente até hoje.
    Admiro a coragem.

    bjs

  7. bem, que grande susto, isto anda definitivamente uma bela porcaria out there, fiquei muito aliviada em saber que fugiram e não se passou nada de mais, mas de facto um belo de um tazer e 50 mil volts parecem-me cada vez mais um must….

    ainda bem que não se passou nada, que fúria e raiva, agora nem em casa se pode estar em paz e descansado…

    uma amiga tem sistematicamente a porta do prédio aberta, isso incomoda-me to no end, aqueles vizinhos deviam ser mais cuidadosos…

    beijocas para todos, ana

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