Os primeiros brincos do curso de joalharia

Acabei ontem os brincos que tenho andado a fazer na aula de joalharia. É a minha primeira peça do curso. Parecem terrivelmente simples mas passaram por uma série de etapas que a maioria das pessoas nem deve imaginar que são necessárias para chegar a uma peça destas. Resolvi documentar o processo que agora apresento aqui.

Projecto

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O primeiro passo é, obviamente, fazer o projecto. Fiz diversos esboços até chegar a uma peça que cumpria os requisitos do exercício (aprender a serrar e limar) e com um aspecto que eu gostava – um losango com duas formas curvas na sua superfície. A minha ideia inicial era simplesmente cortar as formas na chapa de base e pronto, estava feito. O meu professor tinha outras ideias. Nada de facilitar demasiado porque assim não se aprende.

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Desenhei cada forma em papel vegetal de arquitecto e transferi-as para a chapa de prata de 0,5mm usando papel químico. Depois risquei por cima do desenho com uma agulha presa a um punho de latão (na foto do lado). Riscar a chapa desta forma evita que o desenho desapareça a meio do processo.

Serrar

Com todas as peças marcadas na chapa, chegou a vez de serrar com uma serra de joalheiro.

Até aqui tinha serrado principalmente argolas e chapa a direito e é uma diferença enorme quando se começam a recortar peças tão pequeninas e com imensas curvas. Estas serras são muito finas e partem-se facilmente, especialmente a fazer as curvas, se se torcer a serra. Como tinha umas curvas muito apertadas, ainda parti umas quantas serras antes de lhe apanhar o jeito. Basicamente é preciso serrar no mesmo sítio enquanto se vira a serra lentamente. O movimento ter de ir abrindo um buraco largo o suficiente para a serra virar.

Para facilitar o processo, em desenhos com muitos ângulos apertados, pode-se fazer um furo nos cantos, fora da linha do desenho, para ajudar a serra a mudar de direcção. Não fiz isto porque o objectivo era aprender a usar a serra em qualquer circunstância.

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Uma das ferramentas que deu imenso jeito neste processo foi o punho de madeira (na foto acima) que é uma ferramenta essencial para segurar a chapa quando trabalhamos com formas pequenas. Podemos usar um alicate paralelo mas este tem mais tendência para deixar a chapa fugir e requer pressão constante, que faz doer a mão ao fim de algum tempo.

A cunha de madeira (estilheira) serve para apoiar a chapa, oferecendo estabilidade enquanto se trabalha e permitindo manter uma postura correcta ao ter o trabalho praticamente à altura dos olhos.

Limar

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Na foto de cima vemos as peças já serradas e prontas a limar. Comecei com uma lima mais grossa e depois passei para as mais finas. Utilizei três tipos de lima: redonda, triangular e de meia cana.

Por vezes, devido ao reflexo da luz na chapa, torna-se difícil ver o risco e podemos serrar demasiado longe. Nestes casos, em vez de perder horas a limar, mais vale voltar à serra e retirar mais um bocadinho da chapa.

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As chapas na foto de cima já estão limadas e prontas a formar. Arredondei-as ligeiramente na embutideira (um cubo com furos que aparece numa das fotos abaixo. Martela-se o metal até este ganhar a forma curva da “taça” cavada no cubo.

Mola de brinco

Faltavam ainda as molas para o espigão pelo que avancei para essa fase.

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Desenhei a forma da mola em chapa de prata de 0,5mm de espessura, que é basicamente um circulo no centro de um rectângulo fino e comprido. O rectângulo mede 52×3,5mm e o circulo tem 7mm de diâmetro. Pode ser preciso fazer uma mola maior ou mais pequena, dependendo da escala dos brincos.

Serrar esta peça deu mais desafio do que as anteriores. As formas geométricas simples – círculos, quadrados… – são muito mais difíceis de cortar direitinhas do que possa parecer. Se existir alguma falha os nossos olhos dão logo por isso.

Porque é uma peça que vai ser necessário repetir muitas vezes, fiz um molde em cobre que usei depois para riscar as duas peças de prata. É preciso ter atenção ao facto das cópias ficarem sempre ligeiramente maiores do que o molde pelo que se pode serrar logo no risco, sem ser necessário deixar margem para limar.

Quando consegui as duas peças iguais, arredondei os cantos com a lima e depois encurvei-as na embutideira. Foi preciso recozer as peças porque o metal endurece ao martelar. Recozer quer dizer aquecer o metal até este ficar mole novamente.

Depois de branquear (colocar a peça em ácido) e catrabuchar (esfregar com uma escova de latão chamada catrabucha), enrolei as pontas para formar a mola, furei o centro do circulo com uma broca de 1 mm e passei com a serra por dentro para abrir o canal para o espigão.

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Na foto de cima vemos as molas já com o furo.

Foi altura de fazer o espigão. Como a superfície de contacto entre o espigão de 1 mm soldado perpenc«dicularmente a uma chapa era muito pequena, criando assim uma soldadura vulnerável a quebras, tinha duas opções: ou furava a chapa de base e inseria o espigão ou soldava uma pequena argola à volta do espigão para dar estabilidade. Optei pela segunda solução.

Formei umas pequenas argolas com diâmetro interno de 1 mm (espessura do espigão) e soldei tudo à pequena peça que iria suspender o brinco. Soldei também uma pequena argola na ponta para suspender a peça principal do brinco.

Cortei o espigão para ficar com cerca de 11 mm de comprimento e, com a serra, criei um pequeno recorte à volta do espigão, a cerca de 2 mm da ponta. Este recorte serve para evitar que a mola caia para fora do espigão. Na verdade, uma mola bem feita deve fazer click quando encaixa neste recorte. Se não fizer, algo precisa de ser apertado.

O recorte pode ser feito com um alicate de corte, fazendo uma pequena pressão e rodando o espigão, mas é preciso cuidado para não apertar demais e cortar o espigão.

Soldar

Foi altura de soldar a peça principal. Amarrei as peças pequenas em cima da base com fio de ferro, cobri com tincal (líquido à base de borax, que impede a oxidação do metal e permite o fluir da solda), coloquei solda nas pontas (os únicos pontos de contacto) e aqueci a base, porque é a peça maior.

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A solda escorre sempre para a zona que estiver mais quente e as peças pequenas aquecem mais depressa do que a grande, pelo que o calor tem de ser apontado para o componente maior ou dado por baixo. Para soldar peças pequeninas, o ideal é mesmo aquecer o carvão à volta da peça em vez de apontar a chama directamente para a chapa. Demora mais tempo mas compensa.

Uma das minhas peças aqueceu demasiado e as pequenas chapas curvas caíram e ficaram completamente soldadas à base. Precisei de começar tudo de novo porque não havia maneira de soltar a solda sem derreter a peça toda. Foi preciso cortar as três formas de novo. Felizmente lá acabei por conseguir soldar tudo à segunda vez.

Olhando para trás, devia ter inserido uma mina de grafite por baixo das peças curvas, para as sustentar mas na altura não me ocorreu tal coisa.

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Acabamento

Com a soldadura completa foi a vez do acabamento. A base teve um acabamento texturado, feito com uma fresa de diamante. As peças curvas tiveram um polimento para um acabamento espelhado. O problema maior é que é muito complicado polir o topo sem destruir a textura da base, uma vez que estão muito próximos. Na foto nota-se que há uma ou duas áreas da base que ficaram polidas e precisavam ainda de retocar a textura.

No final uni os componentes fazendo um elo de ligação com uma pequena conta de onix.

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Prata e onixsilver and onix
Prata e onix
silver and onix

1 Comment

  1. Thank you for sharing. I learned from your methods to make wing nuts and to support the wire posts with small jump rings. Thank you.

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