Gargantilha com cravação de garras

O projecto de gargantilha tinha dois objectivos. Por um lado, aprender a formar da gargantilha em si, com particular atenção à curva do pescoço, e por outro aprender a cravação de garras. Enquanto a cravação de virola se utiliza para cabochons e outras pedras com uma base direita, a cravação com garras utiliza-se para pedras com pavilhão (bico com diversas facetas na base da pedra. É o que dá o brilho à pedra).

silver choker by Dee Caria

Comecei com fio de prata de 2 mm que foi laminado até ficar um fio rectangular de 2,30 x 1,70 mm. Esse fio foi moldado à volta de um busto de ferro até formar a curva do pescoço. Os dois detalhes importantes deste processo são os seguintes:

1. O fio fica de pé, ou seja, assenta sobre a face mais fina. A face mais larga é a que contorna o pescoço. Isso torna a gargantilha mais confortável de usar.

2. para além da curva à volta do pescoço, deve também formar-se uma curva para baixo, de forma a ajustar a gargantilha à curvatura natural dos ombros. ou seja, quando assente sobre a mesa, a base não fica completamente plana. Assenta apenas à frente e atrás e levanta no meio.

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Assim que se consegue a forma correcta no fio de base, é altura de adicionar os elementos decorativos. Há quem tenha criado folhas e flores de chapa, cachos de contas e outras soluções possíveis. Eu optei por espirais em fio com pedras de topázio e citrino. Queria algo decorativo mas não tão pesado que fosse preciso uma ocasião especial para poder usar a peça.

Criei as espirais em fio de 1,5 mm e martelei as pontas para espalmar ligeiramente as curvas. Por um lado as diferenças na espessura do arame dão mais interesse à peça e por outro o metal fica mais duro e as curvas não se deformam tão facilmente. Funciona como “fixador” da forma que damos ao metal.

A gargantilha foi toda montada no busto de ferro sobre plasticina até ficar satisfeita com a disposição dos diversos elementos. Apesar de ter feito o projecto em papel inicialmente é sempre necessário fazer pequenos ajustes ao desenho quando se passa para o tridimensional.

Depois foi uma questão de começar a soldar as várias partes. Devido à quantidade de metal foi necessário usar uma chama grande e rodear a zona a soldar de carvões para reter o calor na área que interessava. Descobri que era muito fácil sobreaquecer as pontas das espirais mas felizmente não cheguei a derreter nenhuma. Para tal, foi preciso usar muito corrector nas pontas e tapar algumas espirais com bocados de carvão para evitar que o calor incidisse nelas directamente.

Com a base soldada a gargantilha até podia ficar só assim. No entanto eu gosto sempre de dar cor às peças, através do uso das pedras. Foi altura de aprender a fazer as cravações.

Utilizando novamente o fio de 2 mm, laminei até obter uma tira rectangular com uma altura um pouco menor do que o pavilhão da pedra. Neste caso o pavilhão media 4 mm e o fio ficou com 2,20 de altura por 0,6 mm de espessura. Criar as base da cravação foi um processo complicado porque, ao contrário das virolas em que basta enrolar o fio à volta da pedra e temos a medida certa, nas cravações de garra a base deve ser ligeiramente mais pequena do que a largura da pedra, de forma a que não se veja quando olhamos de cima, ou seja, o diâmetro da pedra deve ser semelhante ao diâmetro exterior da base. O paquímetro é essencial neste processo para percebermos se estamos a tirar demais ou de menos relativamente ao tamanho da pedra. É um processo que exige bastante rigor.

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Fiz dois formatos de cravação – redonda e em gota – e em casa fiz ainda mais um, em quadrado, para um anel. Já que estava em modo de aprender a técnica, queria experimentar o máximo de variações possíveis para tirar dúvidas.

As garras foram feitas com fio de 0,8 mm. Para as prender à base tentei duas técnicas:

1. soldar uma cruz, sobrepor a base da cravação, dobrar as quatro pontas para cima e soldar

2. Criar um U invertido que encaixa sobre a base e soldar as garras duas a duas.

Gostei mais da segunda versão. Pareceu-me mais fácil de controlar a orientação das garras e permite segurar o fio com uma pinça apoiada (terceira mão) durante a soldadura.

Soldei as cravações concluídas à estrutura. Mais uma vez, a diferença de tamanho entre a cravação e a base torna este processo complicado. É necessário concentrar o calor e evitar apontar a chama directamente para as garras, que são o ponto mais fraco e com mais tendência para derreter. O calor deve ser sempre focado no metal maior, que demora mais tempo a aquecer.

Antes de colocar as pedras na cravação ainda passei por mais um passo: as garras têm de ser enfraquecidas por dentro para dobrarem facilmente sobre a pedra sem a partir. Para tal ajustei a altura das garras, de forma a sobrar apenas um milímetro acima do pavilhão da pedra, que é o necessário para a prender à cravação sem tapar demasiado a coroa (zona superior da pedra).

Depois usei a serra e a lima triangular para retirar algum metal no interior das garras, desde a base até ao milímetro do topo. Só então encaixei as pedras no lugar e dobrei as garras sobre a pedra com a ajuda de um alicate, mas sem exercer demasiada pressão. Mesmo com pedras resistentes é muito fácil lascar um cantinho se não tivermos cuidado. Até os cravadores experientes necessitam de ter uma ou duas pedras a mais para estes casos.

Uma das garras não estava a querer dobrar o que até foi bom porque aprendi um truque para resolver estas situações: inserindo a serra entre a pedra e a garra podemos gastar mais um pouco o metal, dando-nos a forma que precisamos para a garra descer o que falta.

Parece algo arriscado serrar junto à pedra. A primeira reacção é medo de riscar a pedra. Se for uma turquesa ou outra pedra mole, isso é sem dúvida um factor, mas quando falamos de diamantes, topázios e pedras da família do quartzo, como a ametista ou o citrino, essa questão não se põe. A pedra tem uma dureza suficiente para não ser afectada pela serra ou pela lima. A lixa, por outro lado, tira brilho à pedra, pelo que as pontas das garras devem ser sempre arredondadas com a lima.

Com as pedras cravadas faltava ainda criar pequenos terminais para as gotas, de forma a tapar os furos e o fio que as suspende. Fiz um terminal em fio, tal como sempre tinha feito para os trabalhos em wire-wrapping, mas desta vez corri solda por entre os fios para que ficasse um objecto sólido. A vantagem é que assim não se corre o risco da ponta do cone se prender na roupa ou cabelo e desenrolar ou deformar. Tem uma construção mais sólida.

No final fiz o polimento habitual. Usei feltro para grande parte da superfície, seguido de uma escovinha rotativa para as reentrâncias, pompom para dar brilho e terminando com linha de algodão nos furinhos onde não entrava mais nada.

 

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