Feminismo

Sempre acreditei em igualdade de direitos. Acho que as pessoas são iguais e merecem os mesmos direitos independentemente de sexo, idade, raça, religião, preferência sexual ou seja lá o que for. As diferenças de tratamento deveriam ser baseadas no comportamento da pessoa e não nas suas características à priori.

Uma das coisas que me faz mais confusão na nossa sociedade actual é acharmos que alguém tem mais valor só porque tem mais dinheiro, uma posição mais alta numa empresa ou porque é uma celebridade. Uma pessoa é uma pessoa e deviamos todos ter os mesmos direitos, oportunidades, a mesma justiça, o mesmo respeito.

É uma visão idealista, claro, mas cada pessoa tem a oportunidade de escolher, ao longo da sua vida, se vai ser meramente egoísta e focar-se inteiramente em “o que é que eu ganho com isto” ou tentar, através de pequenos actos, tornar a sociedade mais perto deste ideal de igualdade.

Tenho imensa pena que o feminismo, um movimento cujo objectivo principal era criar igualdade de direitos e salários para homens ou mulheres, tenha hoje em dia um significado tão negativo devido a pequenos grupos que usam a bandeira do feminismo como desculpa para tratar todos os homens como o inimigo.

O verdadeiro feminismo não quer tirar direitos aos homens para os dar às mulheres. Quer que as mulheres tenham as mesmas oportunidades de acesso ao trabalho e à educação, que sejam pagas da mesma forma pelo mesmo trabalho. Não é difícil ver que as mulheres em cargos altos, tanto em empresas como na política, comtinuam a ser uma minoria e quando há uma mulher num cargo importante há sempre alguém a fazer a piada de que subiu “na horizontal”. Continua a menosprezar-se a inteligência e capacidade de trabalho das mulheres de uma forma geral mas não se fala de como foram parar aos cargos as centenas de gestores e administradores masculinos incompetentes que temos por aí.

As mulheres também podem ser umas víboras? Sem dúvida. Todos temos as mesmas qualidades e defeitos. É precisamente isso que estive a dizer até aqui, mas a questão é que não somos necessariamente penalizados da mesma forma. Há críticas e regras diferentes para homens e mulheres, ricos e pobres, brancos e negros. Há preconceitos tão enraizados que vão demorar gerações a ser eliminidados, se é que isso alguma vez acontecerá.

Lembro-me de ter lido um artigo sobre um apresentador de televisão que resolveu usar o mesmo fato durante um ano inteiro e ninguém reparou. A sua intenção era chamar a atenção para a forma como as apresentadoras, mulheres, eram criticadas pelo seu aspecto enquanto que ninguém ligava ou criticava a roupa dos homens. Mas eu vejo outra coisa nisso: a roupa masculina aceite para a televisão ou algum evento formal é sempre a mesma. Os fatos são, no fundo, todos iguais. As mulheres são mais criticadas porque também têm liberdade para mais variedade  enquanto os homens estão presos a uma limitação muito grande no que diz respeito ao vestuário permitido. Há desigualdade de ambos os lados.

Isto leva-me a um artigo que saiu recentemente sobre a vida universitária em Inglaterra. O artigo refere que está a tornar-se tão comum os rapazes serem acusados de assédio ao abordar raparigas que preferem abdicar de contacto com o sexo oposto e socializar apenas com outros rapazes. Isso faz com que fiquem ainda mais inaptoa a lidar com o sexo oposto porque mantêm uma infantilidade emocional muito grande por falta de experiência. O texto Sugere que os programas que foram criados nas universidades para tentar proteger as raparigas de violação, algo que é um problema real e grave, está a tirar confiança aos rapazes que ficam com demasiado medo de ser acusados injustamente para sequer tentar falar com as raparigas.

Isto é outro daqueles casos de pau de dois bicos. Ao tentar resolver um problema por vezes vai-se longe demais ou toma-se o caminho errado e acaba por se criar outro. Em Inglaterra, nos Estados Unidos, e possivelmente em muitos outros países, a universidade é quando os adolescentes saem de casa dos pais e vão viver sozinhos, ou na própria escola ou perto dela. É uma época de liberdade e excessos que em alguns caso acaba de forma desastrosa. Toda a gente sabe que os casos de violações de raparigas que foram drogadas ou que beberam demais, que são atacadas por grupos de rapazes para quem aquilo é só uma brincadeira, doa a quem doer, são reais e frequentes. É um problema que é necessário resolver. Sabendo que a tendência é para culpar a vítima, é natural que as instituições tentem criar programas de sensibilização e informação. No entanto, não se pode desatar a tratar todos os rapazes como violadores e fazer as raparigas sentir-se vítimas indefesas. Aulas obrigatórias de consentimento   podem fazer sentido como informação para rapazes que não sabem como lidar com o sexo oposto mas também é capaz de ser um bocado excessivo. Da mesma forma, andar a dizer às raparigas que devem fazer queixa cada vez que um pobre rapaz tropeça nelas por acidente também é demais e destroi a credibilidade dos casos reais. Tem de haver senso comum e cada caso tem de ser avaliado realisticamente. Porque, sejamos honestos, há sempre pessoas a abusar do sistema de ambos os lados e isso é mau para todos.

Nunca fui muito a favor daquilo que os americanos têm vindo a instituir que é a mania de os rapazes terem de pedir autorização a cada passo que dão. Acho que qualquer homem sabe que, se uma mulher está inconsciente ou incapaz de se expressar, que não está em condições de ter relações sexuais. De resto, se alguém diz ‘não’ ou ‘pára’ também me parece extraordinariamente claro. Para pessoas normais, isto é suficiente. Para os outros, a justiça precisava de funcionar melhor e “não reparei”, “ela não disse nada” ou “não lutou o suficiente” não deviam servir como defesas legais.

Por outro lado, se os homens se sentissem mais livres para expressar emoções, seria muito mais fácil navegar este mundo. Mas isso é outra daquelas desigualdades que o feminismo tenta combater. O mundo e as relações não são simples mas às vezes é preciso correr riscos e arriscar rejeição para se chegar a algo de bom. Aquilo que o artigo expõe, que os rapazes se retraem porque não sabem como falar com as raparigas e, assim sendo, já não se conseguem “consolar com miúdas” é um resultado da visão masculina do mundo em que as mulheres são vistas como entretenimento descartável. Quando as coisas mudam, os rapazes deixam de saber como interagir porque provavelmente não têm ninguêm que os ensine a falar com as mulheres a um nível de igualdade.

Enfim, é um processo que pelo caminho vai deixando muitas vítimas de ambos os lados mas temos de nos lembrar que homens e mulheres não são inimigos. Precisamos uns dos outros e as fases de mudança são sempre confusas mas espero que o resultado seja um mundo mais igual e justo para todos. Mas por favor não desatem a bater no feminismo só porque há grupos de palermas que levam as coisas longe demais.

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