O ensino está podre

O Tiago anda com uma pressão enorme em cima por causa da escola, algo que nunca esperei que acontecesse aos 8 anos. Os gajos que criaram os mais recentes programas educativos do primeiro ciclo são certamente psicopatas cujo único gozo é causar ansiedade, depressão, angústia e desespero em crianças que deviam estar super felizes por já saberem ler e escrever.

Em vez disso sentem-se falhados por, aos 7 anos, terem dificuldade em decorar os nomes dos diversos tipos de triângulos, perceber o conceito de semi recta, aprender fracções e escrever textos com introdução, desenvolvimento e conclusão, com pontuação correcta e, claro, sem dar erros – algo que muitos adultos continuam a ter dificuldade em conseguir.

O Tiago vai-se safando e até tem aproveitamento na escola, apesar da ocasional ficha de português menos boa, principalmente porque sente tanta pressão que bloqueia e deixa coisas em branco que até sabia se conseguisse ter calma suficiente para pensar. Mas o problema é mesmo esse. Por mais que se esforce, hoje em dia nunca chega, nunca é suficientemente bom. E ele e os outros miúdos sentem isso e não conseguem ter gozo naquilo que já atingiram, que já aprenderam.
As escolas há muito que estão no negócio de formar robots. Não há espaço para a individualidade, para a diferença, para as aptidões ou interesses pessoais. É igual para toda a gente e se não és tão bom a uma matéria, problema teu. Mas está a piorar cada vez mais. Só o Português e a Matemática é que são importantes e o resto é palha. Não é que essas coisas não sejam importantes mas não são tudo. Não se pode descartar o resto como se fosse lixo.

Em vez de se criar um sistema de ensino mais aberto e diversificado estão a enfiar cada vez mais matérias de Português e matemática nos programas do primeiro ciclo, tentando ensinar a crianças demasiado pequenas, coisas abstratas que elas não têm ainda maturidade para aprender. Pior que isso. Estão a preparar-se para fazer o mesmo ao jardim de infância, provavelmente esperando que crianças de três e quatro anos já saibam o alfabeto completo e contar até 20 – então se eles já contam até dez, o que custa puxar mais um bocadinho?

E o tempo e espaço para ser criança? Querem robozinhos de fato e gravata logo à saída do útero? Para quê? Cambada de idiotas.

O consenso geral entre as pessoas que lidam de perto com os alunos – pais, professores, psicólogos – é que estes programas de ensino e metas curriculares são claramente feitas por alguém que nunca viu uma criança nem sabe o que isso é. Pior ainda, nem querem saber. São pessoas com cargos muito importantes que acham certamente que uma criança de 7 anos e um estudante universitário são mais ou menos a mesma coisa. São alunos e isso chega. Estão a desmotivar e a provocar ansiedade desnecessária a crianças que hoje em dia já nem têm tempo para brincar, tal é a carga horária da escola seguida dos TPC. Estão a criar uma geração de infelizes que precisam de acompanhamento psicológico mal largam as fraldas.

Pelo que tenho lido, a atitude desta gentinha que se acha muito superior e afinal não percebe nada disto é que os alunos que não conseguem acompanhar, paciência. Chumbam e tentam outra vez no ano seguinte. E que os professores só têm é de organizar melhor o tempo para conseguir dar toda a matéria. Isto porque acham que ensinar é só debitar a conversa que vem nos livros e seguir em frente. Mas não é. Para uma verdadeira aprendizagem é preciso fazer um trabalho de consolidação na aula. É preciso repetir, fazer exercícios, perder tempo com cada assunto. Senão é só decorar sem aprender e isso não serve para nada nem dá bases para o que vem a seguir. O que é que o país ganha com uma absurdidade destas?

Como se a crise económica não fosse um buraco suficientemente grande, a forma criminosa como estragaram o ensino é mais uma razão para apetecer arrasar com este país e começar de novo.

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