Passei o dia à espera de diversos indivíduos.
Primeiro foi a entrega das compras, que desde que passou a ser pago pelo menos tem um horário mais certo do que ‘entre as 10 e as 14′. Depois foi a vez do canalizador.
Já ouvi tantas histórias sobre canalizadores que demoram um mês a aparecer, etc, que na segunda feira resolvi contactar uma empresa em vez de um tipo que trabalha sozinho. Marcaram logo para o dia seguinte às onze. Pouco depois das onze recebo um telefonema do ‘técnico’ a dizer que estava atrasado, mas até nem demorou muito. O pior foi quando chegou efectivamente.
Levei-o até à cozinha para ver a canalização do lava-loiça que passa o tempo a pingar. Assim que viu os gatos começou logo mal com o comentário ‘olha gatos! Vocês vêm todos comigo para caçar coelhos.’Quando olhou para a canalização começou a dizer mal dos tipos que montaram aquilo. E depois começou também a embirrar comigo . Primeiro começou a queixar-se sobre como ‘estes clientes só me arranjam berbicachos’. Considerando que tudo o que ele fez foi mudar uma borracha de sítio, não compreendo exactamente onde estava o problema. Aquilo que parece logo é que o tipo não gosta de trabalhar e qualquer coisa que lhe apareça pela frente é um ‘berbicacho’. Ou então é uma daquelas pessoas que começa logo a dizer que é tudo muito complicado para se proteger no caso de não conseguir perceber qual é o problema. De qualquer das formas não é muito agradável. Eu também já tive situações problemáticas com alguns clientes mas pelo menos não lhes telefonava a dizer ‘vocês só me arranjam chatices’.
Depois virou-se para mim e perguntou-me se era do Porto. Disse que não. Ele resolveu clarificar dizendo que se referia ao clube. Dei a mesma resposta, num tom levemente mais inquisitivo. O seu comentário seguinte foi a explicação ‘é que como tem as unhas pintadas de azul pensei que fosse.’ E como se não bastasse ter um gajo que me conhece à cinco minutos e a quem estou a pagar para se concentrar nos canos a criticar a minha escolha de verniz para as unhas, ainda achou conveniente acrescentar ‘bem, é um azul um bocado ranhoso mas não deixa de ser azul.’ Dei-lhe o meu melhor sorriso amarelho de sobrolho levantado e não disse mais nada. O que veio a seguir foi ainda melhor: ‘Não me diga que é do Benfica? É que se é do Benfica parto-lhe já isto tudo!’ É mesmo o que se quer ouvir de um canalizador. A partir desta altura só queria ver o gajo fora dali.
Quando acabou de reorganizar as peças do lava-loiça, fomos para a casa de banho onde mostrei a torneira que era para substituir. Quando viu a nova torneira perguntou logoquanto tinha custado e contou-me a história de como tinha comprado a dele em espanha por metade do preço de cá. Portanto, para além de crítico de moda é também muito esperto.
Check.
Eu e o Pedro já tinhamos tentado desmontar a torneira da banheira durante o fim de semana. Mas como o espaço visivel da rosca era muito pequeno a ferramenta não cabia. Foi daí que veio a ideia de chamar antes um profissional em vez de estarmos a tentar improvisar.
É claro que depois da fita que o tipo fez com o lava-loiça, já estava à espera que a torneira fosse o fim do mundo. Voltaram os comentários anti-cliente ‘estas gajos é sempre Tomás arranja-me isto, Tomás resolve-me aquilo e o Tomás é que se lixa. Um dia destes deixo de aparecer.’ Parte de mim gostava que esse dia tivesse sido hoje, mas achei que não era seguro dizer isso a um gajo com uma ferramenta pesada na mão.
Depois de muito grunhir lá desmontou a torneira. Montar a nova foi outro problema porque a rosta era pequena. Sugeri colocar as peças que vinham com a torneira porque tinham roscas maiores e ele disse que não mas lá acabou por fazer. Ao fim de uma meia hora a torneira ficou montada. Paguei ao tipo e fiquei muito feliz quando se foi embora. Ainda era suposto falar-lhe no bidé que deita água para o chão quando se destapa mas já não tive paciência para aturar o gajo mais tempo.
Entretanto era uma da tarde e tinha passado a manhã de pé – a arrumar compras, a tirar coisas de dentro do armário por baixo do lava-loiça, a aturar o canalizador – por isso estava bastante cansada. Apesar de ser hora de almoço não estava com fome, por isso limitei-me a comer umas uvas. Também não queria por-me a cozinhar porque não sabia a que horas vinha o homem que é suposto fazer-nos um orçamento para umas pequenas obras.
Acabei por esperar toda a tarde. Quando estava convencida que ele já não vinha, apareceu por volta das sete e meia. Lá andei com ele a mostrar os items da lista e ele tirou notas e ficou de enviar o orçamento por email. Era bastante mais simpático e humilde que o tipo da manhã mas é provavel que seja do estilo de nunca mais ouvir falar dele. Vamos ver.
Entretanto o gato preto já passa os dias na sala. Dentro da caixa, mas já ao pé dos outros gatos. De manhã eles ainda vão cheirar mas já não fazem fita e ficam calmamente a dormir no sofá apesar da presença do estranho. As pequeninas ainda são as que estão com mais dificuldades em aceitá-lo e não ficam na sala com os outros. Estranho. Até pensei que fosse mais fácil habituá-las dos que os outros.