Pensamentos pós gravidez

Só 3 dias depois do parto é que me apercebi que já não tinha azia. Eu sabia que era um sintoma da gravidez e que devia passar quando já não tivesse o Tiago a empurrar o estomago para um sitio onde ele não queria estar, mas a rapidez com que estes sintomas desaparecem não deixa de surpreender. Depois de conviver com a azia, o nariz entupido e os tornozelos inchados durante tanto tempo parece milagroso quando tudo desaparece de um dia para o outro. Bom, quer dizer, os tornozelos continuaram inchados durante uns dias porque estive a soro e dieta là­quida durante dois dias, o que não ajudou. Mas esse até é o sintoma que chateia menos. Já não ter o nariz entupido é que é um alivio brutal. E já não ter dores de estomago. E conseguir passar mais de meia hora sem ter de fazer xixi. Isso sim, é qualidade de vida 🙂

Também tinha andado a pensar noutra questão relativa à  gravidez que já agora menciono aqui. Há algum tempo, penso que em resposta ao post sobre a forma como as pessoas aderem a modas ridiculas sem pensar, alguém terá falado nas grávidas que mostram a barriga num tom algo ofendido. Sinceramente não tenho nada contra. Eu não gosto de andar com a barriga à  mostra em ocasião alguma porque não é propriamente a minha área mais atraente (especialmente agora :P) mas não me ofende quem o faça. Acho que é uma moda adolescente mas é também parte de um ritual de acasalamento, tal como mostrar o decote – é exibir as zonas do corpo que estão associadas com a fertilidade, razão pela qual algumas pessoas se sentirão incomodadas. Sendo assim, mostrar a barriga durante a gravidez é uma extensão dessa ideia, tornando óbvio o facto de se ser de facto fértil e não apenas de ter o potencial. Há uma espécie de orgulho na barriguinha pela mesma razão que faz qualquer estranho achar que pode fazer pergubntas à s mulheres grávidas. A reprodução continua a ser a base da evolução e sobrevivencia da espécie e a sua importancia continua a ser a mesma de sempre.

No entanto, à  medida que a minha barriga foi crescendo comecei a ter outro problema, totalmente independe destas questões filosoficas: a roupa deixa de servir. As calças caem e mesmo as camisolas de grávida têm tendência para subir, expondo a barriga quer se queira quer não. Por vezes é algo impossivel de evitar. Acho que a roupa de grávida ainda tem muito que evoluir nesse aspecto.  Mas tendo em consideração este facto, será que ainda é ofensivo mostrar a barriga ou isso está limitado à s pessoas que o fazem ostensivamente? Suponho que no fundo não interesse porque à s tantas chega-se a um ponto na gravidez em que até se andava nua se fosse mais confortável e o resto do mundo que se lixe.

A primeira semana em casa depois do parto

Assim que cheguei a casa respirei de alivio. Estava com uma dor de costas brutal porque amamentar no hospital implicava estar sentada numa cadeira sem braços, e por isso sem apoio para o cotovelo, ou na cama, sem apoio para nada. Ainda me emprestaram uma almofada daquelas de embrulhar à  volta da barriga, mas era tão dificil faze-lo pegar na mama que acabei por nem conseguir usar muito. Isto porque à s vezes só conseguia com ele sentado e outras vezes era preciso estar eu de pé a mexer-me para ele não voltar a adormecer.

Começámos então a ajustar-nos ao equipamento caseiro. foi logo preciso mudar a fralda, algo que o põe sempre a chorar descontroladamente porque não gosta nada de ser despido, resultando depois em soluços. Aproveitámos para optimizar a consola das fraldas para ter a certeza que estava tudo à  mão e depois montámos o berço para ter sitio para ele dormir. Quando reparei era meia noite.

Ele dormiu razoavelmente bem nessa noite. Eu é que só dormi 2 periodos de 2 horas por causa dos intervalos para amamentar e mudar fraldas. Mas sinceramente, em comparação com o que dormi no hospital foi uma maravilha. Apesar disso reparei que estava a começar a ter alucinações. Estava a amamentar e a pensar que o Pedro tinha aparecido à  porta do quarto e estava a falar comigo, e de repente acordei. É mesmo muito estranho e indicativo do nivel de cansaço. Mas não é surpresa nenhuma. Já se sabe que dormir agora é uma coisa do passado.

Na manhã de sexta feira consegui tomar banho. Foi o meu grande achievement do dia. Depois fomos ao centro de saude para o Tiago fazer o teste do pezinho. A enfermeira perguntou se eu queria sair enquanto o picavam porque me podia fazer impressão. Até compreendo mas felizmente não sou assim tão sensivel. Mais uma mudança de fralda e muitas visitas das diversas pessoas que trabalham no posto e voltámos para casa. O Tiago voltou a comer e finalmente consegui almoçar. A minha mãe esteve cá em casa a brincar com o netinho até serem horas de sair para a consulta com o pediatra. Saimos de lá com duas informações importantes: ele já está a ganhar peso outra vez e não tenho que o acordar para mamar antes de 4 horas, ao contrário do que me tentaram convencer no hospital. Menos uma preocupação.

Ao fim do dia tivemos uma série de visitas, algo que continuou durante os dias seguintes. É compreensivel mas tornou estes dias ainda mais cansativos porque não deu para descansar nem cinco minutos durante o dia.

Para piorar as coisas apareceu trabalho para fazer. Nada de muito complicado mas ainda estive ao computador uns minutinhos e depois tive de começar a fazer um boneco porque chegou uma encomenda. Felizmente fazer bonecos não é contra indicado porque limito-me a estar no sofá a coser. É só levemente cansativo porque requer alguma concentração para não fazer asneira.

No sábado de manhã estive novamente a arrumar coisas. As visitas trazem prendas e fica a casa cheia de sacos que é preciso vazar, arrumar, separar o que é para deitar fora, etc. Como ainda me doia a cicatriz e me custava baixar para apanhar coisas do chão, não foi fácil.

De tarde fui ao SAP tirar os agrafes. tinha feito reacção alergica ao metal e estava tudo um bocado inflamado, por isso é que estava a doer mais. Tentei ficar quietinha o resto do dia para ver se não estragava nada. Continuei a fazer o boneco que só consegui acabar à  noite, graças à s constantes interrupções que apesar de tudo já se estão a tornar rotina.

As minhas avós e os meus tios de Palmela vieram ver o Tiago por volta das oito.

A noite de sábado para domingo foi complicada já que o Tiago esteve a chorar a noite toda com cólicas. Tentámos as massagens todas e as posições todas e nada parecia ajudar. Calava-se um bocadinho, parecia acalmar e cinco minutos depois voltava tudo ao mesmo. Só acabou por dormir um bocadinho deitado no peito do pai mas mesmo assim continuava a contorcer-se de vez em quando.

Quando finalmente adormeceu por volta das seis e meia da manhã, consegui ainda dormir um bocadinho mas pouco tempo depois foi necessário mudar outra fralda, por isso não durou muito.

De tarde fomos a casa dos meus sogros porque era o aniversário do meu sogro. Estava lá grande parte da familia e mantiveram o Tiago ocupado durante uma horinha. A minha sogra ensinou-me a técnica do cotonete para ajudar a libertar os gases e que tenciono usar da proxima vez que for necessário. Não há garantias que funcione mas quantas mais armas melhor.

Na segunda feira tive de enviar uma encomenda e acabar mais umas coisinhas de trabalho que não podiam ficar penduradas e montámos finalmente a cama de grades.

Ontem fomos novamente ao pediatra para pesar o Tiago. parece que já ganhou mais algum peso mas ainda não voltou ao peso inicial. Eu também já perdi nove quilos mas suponho que agora devo ficar por aqui.

Também acabei de arrumar o quarto do Tiago, finalmente, com o nome dele na porta e tudo. Afinal a porta é mesmo dele: provavelmente não a tinhamos ainda se não fosse o Tiago.

Os gatos andam muito curiosos com o novo membro da familia e tentam constantemente saltar para o berço para o ir cheirar. Isto implica que grande parte do tempo estam fechados na cozinha para não termos de andar a enxotá-los o tempo todo. O House, que estava finalmente a ficar domesticado, já anda todo desconfiado outra vez, apesar de ser o único que ainda não fez qualquer tentativa de se aproximar do berço.

Hoje de manhã tive que ir ao correio enviar mais uma encomenda e ir à  farmácia. Como o Pedro teve de ir para Lisboa a uma consulta e tratar de burocracias, a minha mãe fez o favor de vir cá fazer babysitting enquanto eu saà­a.

A notà­cia do dia é que caiu finalmente o cordão umbilical. Comprei o pó cicatrizante que o pediatra recomendou mas agora estou um bocado em duvida sobre se devo usar ou não porque aquilo diz especificamente para não usar em recem nascidos. É um bocado estranho.

Entretanto ele está outra vez com umas dorzitas de barriga por isso está na hora de ir fazer mais uma massagem e depois ver se consigo comer qualquer coisa.

Depressão pós-hospital

Na segunda feira de manhã começou a ronda diária de médicos e enfermeiras a entrar e a sair da sala. Foi uma manhã longa com a impaciencia de falar com o Pedro que só pode ir finalmente ver o filho ao meio dia. Das 3 à s 4 da tarde tive uma série de visitas a entrar e a sair em intervalos de 5 ou 10 minutos. Depois fiquei sozinha novamente até à s oito da noite.

A senhora da cama ao lado saiu à s sete e ainda pensei que fosse ficar sozinha no quarto essa noite mas pouco depois trouxeram outra. Era uma senhora simpática, que tinha tido uma menina e com quem ainda me fartei de falar durante os quatro dias que fui obrigada a passar no hospital.

Neste segundo dia o Tiago abriu finalmente os olhinhos. Nunca pensei que uma coisa tão simples pudesse ser tão emocionante. É incrivel como uma pessoa fica completamente estupidificada com estas coisas mas suponho que é assim mesmo. Os instintos são muito fortes.

Essa noite começou o stress porque o Tiago recusava-se a mamar. Nem sozinha nem com a ajuda das enfermeiras conseguia que ele pegasse na mama e só via as horas a passar. As enfermeiras iam mudando e cada uma tentava a sua técnica. Foram-lhe fazendo picadas para ver o nà­vel de glicémia e só ao fim de 36 horas é que consegui finalmente que ele mamasse por uns cinco minutinhos. Daà­ para a frente foi sempre o mesmo stress a cada 2 ou 3 horas já que ele não tinha sequer o reflexo de busca e recusava-se a acordar.
A terceira noite foi a pior porque assim que começou finalmente a mamar o Tiago passou a noite a chorar com dor de barriga. Entre as 3 e as 5 da manhã não parou de chorar. Chamei uma enfermeira mas calhou-me uma toda arrogante que não me ligou nenhuma. Quando finalmente apareceu outra veio com uma tanga qualquer de que os bebés à s vezes choram sem razão, bla, bla, bla. E quando eu tive a lata de chamar colicas ao que ele tinha ainda cheguei a ouvir uns comentários tipo ‘pois, isso das cólicas é desculpa para muita coisa.’ Tradução: a tipa não sabe o que está a fazer e é facil dizer que a culpa é das cólicas. A verdade é que ele não mamava porque estava com dores na barriga e não havia grande coisa que eu pudesse fazer.

De manhã ele acalmou finalmente e eu adormeci. O que acho fabuloso é que gozaram comigo por estar a dormir, como se fosse quase um crime. É impossivel descansar no hospital. De noite são os bebés a chorar e pessoas a andar no corredor, de dia é isso acrescido das visitas de 20 em 20 minutos para medir a tensão, distribuir medicamentos, trazer comida, examinar as mães e os bebés, fazer inquéritos, etc. Porque é que não juntam pelo menos algumas dessas coisas numa só visita? É assim tão complicado medir a tensão e deixar comprimidos de uma só vez?

Pelo menos fiquei a saber que o problema dos pés não é grave e é uma questão de fazer ginastica para fortalecer os músculos. Por outro lado fez um rastreio auditivo que só passou do lado esquerdo. Acho que foi simplesmente porque quando foram ver do lado direito ele estava a mastigar e isso interfere com o mecanismo do teste. Mas não deixa de ser mais uma dúvida para o futuro. Ficou marcada uma nova consulta para daqui a seis meses.

A partir daqui o cansaço começou a aumentar e a vontade de ir para casa triplicou. Comecei a ter fantasias de prison break. Nem seria muito complicado – tinha roupa na mala e o alarme do Tiago saltava cada vez que ele abanava o pé (pois, porque eles agora metem alarmes nos bebés que apitam se se tentar sair com eles do hospital).

Na quarta feira tive mais uma má notà­cia – ele estava muito amarelo. Fizeram-lhe uma análise e à s 4 da tarde disseram-me que estava com ictericia e precisava de ser posto debaixo de uma lampada de ultra-violeta durante pelo menos 24 horas. Comcei a ver a alta do dia seguinte a esvair-se em fumo.

Fiquei então com um bebé num aquário durante quase dois dias. Só o podia tirar para comer, algo que demorava uma hora de cada vez porque ele não queria acordar. Pelo menos parecia satisfeito todo esticado no quentinho, como se estivesse na praia a apanhar sol.

O último dia no hospital foi uma tortura. Continuaram as dificuldades em alimentá-lo e a ansiedade de saber se ainda tinha de passar outra noite ali. Acabei por ir chorar umas quantas vezes para a casa de banho, de pura exaustão e inicio de desespero. Há quatro dias que não via a luz do sol e estava sozinha a tomar conta de um bebé pela primeira vez sem ajuda nem ninguém com quem desabafar sequer, rodeada de pessoas desconhecidas, umas simpáticas outras super brutas. Acho que cheguei mesmo muito perto dos meus limites neste dia.

Tiraram novamente sangue ao Tigar à s 5 da tarde e disseram que a analise demorava cerca de uma hora. Como a hora normal de alta é à s sete achei que já faltava pouco. Afinal à s nove da noite ainda lá estava, à  espera dos resultados. Já tinha perdido a esperança de ir para casa quando finalmente apareceu o pediatra com o resultado da analise e finalmente nos deixaram ir embora. Foi um daqueles momentos de aivio puro. Senti-me como se me tivessem deixado sair da prisão depois de ter sido falsamente acusada de matar alguém.

Só sei que passei a compreender as pessoas que vão para hospitais particulares. No HGO podem ser muito bons tecnicamente mas as pessoas são um bocado tratadas como gado.

Nasceu o Tiago

Domingo de manhã. Acordámos cedo e chegámos ao hospital pouco depois das 8. Fui fazer o CTG e depois levaram-me para a sala de partos para fazer a indução e ligaram-me novamente ao CTG. Por qualquer falha de comunicação esqueceram-se de me dar os comprimidos e só por volta das onze é que começou finalmente o processo. Ao fim de 20 minutos tive as primeiras contracções fraquinhas. O Pedro estava comigo. O maior incómodo era a dor de costas e a dor na anca constantes que me obrigavam a mudar de posição, o que fazia o bebé mudar de sí­tio e o CTG perdia o sinal.

Assim fiquei o dia inteiro. Pelo meio deram-me mais uma droga qualquer pelo soro para ver se a indução acelerava mas apesar de ter provocado contracções mais frequentes durante um bocadinho, e de terem passado a ser mais dolorosas, a cabeça ainda não estava encaixada e passado um bocado os intervalos começaram a espaçar mais outra vez. O Dr. Saraiva resolveu romper a bolsa para ver se isso ajudava. Fiquei encharcada porque tinha uma quantidade de liquido amniotico bastante grande mas de resto continuou tudo na mesma.

à€s sete da tarde começou a conversa da opção da cesariana porque deu para perceber que aquilo por indução ia demorar mais um dia pelo menos e acho que o Dr. Saraiva queria ver a situação resolvida. Para além disso, com o rompimento da bolsa, o risco de infecções entre outros era já maior e penso que não convinha esperar muito. Acabámos por avançar com a cesariana.

Enquanto que o parto era uma coisa familiar, a cesariana foi uma experiencia diferente, o que, psicologicamente, ajudou a distingir os dois partos.

Levaram-me para o bloco operatório e assim que vi as luzes e a extenção para o braço senti-me subitamente num episódio do Nip/Tuck. Deram-me a epidural e comecei logo a ficar com a perna direita dormente. Depois deitei-me de costas e a outra também começou a receber os efeitos da anestesia. É uma sensação muito estranha. O meu cérebro estava convencido o tempo todo que tinha a perna direita dobrada quando obviamente não estava. Fiquei com um braço para cada lado, tipo Jesus Christ, cada um amarrado a um suporte. De um lado estava ligada a uma máquina que media a tensão arterial (e fazia ping) e do outro tinha o soro.

Depois taparam-me a visão da cena montando uma espécie de tenta por cima do meu peito. A minha mãe conseguiu convencer os médicos a deixarem-na assistir e estava ao meu lado a fazer comentários ocasionais. Mas quando se começou a entusiasmar com a conversa tive de lhe dizer para deixar de distrair os senhores que me estavam a cortar à s postas. Foi a única altura em que posso dizer que fiquei verdadeiramente nervosa.

De resto não dei por nada. Sentia mexer mas não podia dizer se estavam a cortar, coser ou a jogar xadrez.

Parece que foi complicado sacar o Tiago cá para fora porque entre a sala de partos e o bloco operatório a cabeça tinha finalmente encaixado. Quando o ouvi chorar pela primeira vez tive de fazer um esforço enorme para não desatar a chorar também. Por estranho que seja estar acordada numa situação destas acho que a anestesia geral mata completamente aquela sensação de alivio que se sente quando se sabe finalmente que chegou ao fim e que agora vai estar tudo bem. O que eu só soube depois é que não se limitaram a tirar o Tiago – sacaram-me o utero todo para fora. Não fazia ideia que era assim que se fazia mas agora percebo porque é que não me deixaram ver 🙂

Trouxeram o Tiago ao pé da minha cara para o ver. Eram 7.40 e nasceu com 2800g. Estava todo roxo mas não era tão feioso como eu pensava que os recem nascidos costumam ser. É claro que sempre tive a dúvida de se é possivel ter sentido crà­tico suficiente para reconhecer quando se tem um filho feio. Acho que vou continuar a ter essa duvida para todo o sempre porque me apaixonei imediatamente por aquela coisinha minuscula.

Levaram-no embora para o limpar e depois vieram com ele mais um bocadinho. Eu não lhe podia tocar porque ainda estava amarrada à  mesa mas consegui dar-lhe uns beijinhos. Depois tiveram de o levar embora novamente para o aquecer.

Eu fiquei a ser cosida e tive duas quebras de tensão grandinhas. Fiquei completamente nauseada e cheguei a ter vómitos, mas claro que não tinha nada para vomitar. Foi a pior parte.

Depois iam levar-me para um quarto onde poderia ter visitas mas acabaram por mudar de ideias porque estava lá uma grávida com pré-eclampsia e não nos quiseram misturar. Acabei por ficar 4 horas à  espera no bloco operatório, a olhar para o tecto, sem poder ver o Pedro nem o Tiago. A tensão tinha entretanto estabilizado mas os médicos tinham ido jantar sem ter terminado o processo e por isso nunca mais me levavam para o quarto definitivo.

Quando finalmente me levaram para cima tinha 14 pessoas à  espera no corredor. A hora das visitas já tinha acabado e depois de uns cinco minutinhos lá fui eu passar a minha primeira noite com o Tiago nos braços. É claro que não dormi nem cinco minutos, apesar de estar exausta. Mas não consegui evitar passar o tempo a verificar se estava a respirar, se tinha frio e a memorizar a sua cara e expressões faciais.

Foi uma sensação muito estranha, saber que agora era inteiramente responsável por esta criatura indefesa e que tinha de aprender a desenrascar-me muito rapidamente. Mas ao mesmo tempo foi um alivio tão grande chegar finalmente a este dia que perdi grande parte das dúvidas e inseguranças que tinha muito rapidamente.

The day after tomorrow

Ontem fomos fazer novo CTG e depois de mais uma rapida ecografia e ouvir a opinião de diversas pessoas (médica, enfermeira, …) concluimos então que não vale a pena esperar mais uma semana e vamos preparar-nos para induzir o parto no domingo, salvo a eventualidade de no dia se detectar alguma contra-indicação.

Basicamente o CTG está normal mas o batimento cardà­aco não aumenta muito quando o bebé se mexe e, considerando os antecedentes, é melhor não arriscar.

De repente o nervoso duplicou. Devia ter diminuido, mas aumentou. Passo o tempo a confirmar que o bebé se continua a mexer porque uma parte de mim continua com medo que isto ainda corra mal nos dois dias que faltam. Não há nada mais irracional do que o medo constante de que, seja qual for a data, possa ser tarde demais. É que apesar de toda a gente passar o tempo a confirmar que está tudo bem e que não há razões aparentes para prever o contrário, da outra vez também não havia razões aparentes e nunca mais serei capaz do nivel de confiança que tinha naquela altura.

Quando estiver finalmente ligada à  máquina logo me acalmo. Depois é só respirar fundo e aguentar o tempo que for preciso.

É claro que passei o dia a tratar dos últimos pormenores, desde coisas da empresa até lavar roupa para não ficar muita coisa desarrumada. Tenho plena consciência que a vida vai mudar radicalmente e que vou deixar de ter tempo, mas sinceramente, isso não me preocupa. Já estou à  espera há tanto tempo que ter tempo para mim neste momento seria um mau sinal. Por agora estou concentrada no próximo passo, o que vem depois continua a parecer-me um futuro distante, mesmo sendo já para a semana.

Sempre acreditei em fazer planos e organizar o tempo mas considerar cada dia como uma unidade de tempo independente e por isso criar objectivos diários. Se conseguir cumprir um objectivo que considere importante por dia já fico feliz. Os objectivos de hoje são arrumar o máximo que conseguir e não entrar em pânico. Acho que não me estou a safar muito mal até agora.

O choque da semana

Na sexta feira passada, depois de acabarem as obras, estive a envernizar o bocado novo de chão do hall. Na quinta à  noite fomos rápidamente comprar o verniz e a velatura para tentar que a cor do chão fique igual ao resto e até escolhemos bem. Usei máscara e luvas por precaução mas nem era preciso porque escolhemos produtos aquosos que não são tóxicos nem deixam aquele cheiro horrà­vel pela casa. Dei a segunda demão do verniz à s sete da tarde e fiquei por aà­ para aquilo ter tempo de secar antes de se colocar o roupeiro.

No sábado de manhã levámos a Scully ao vet para ver os dentes e marcar a limpeza. De tarde montámos finalmente o roupeiro que tinhamos comprado há um mês. Eu e o Pedro começámos e depois os meus sogros vieram ajudar nas partes mais pesadas. Ficou pronto por volta das seis da tarde e depois de uma pausa para lanche estive a arrumar no roupeiro a tralha que estava amontoada em sacos um pouco por toda a casa.

No domingo comecei a limpar devidamente o quarto do bebé e a lavar a roupa do primeiro mês, as almofadas e as cortinas que vão ficar no quarto.

Depois do esforço do fim de semana, na segunda estava exausta e passei a tarde a adormecer no sofá.

A terça feira foi um dia comprido. Começámos por levar a Scully ao vet para limpar os dentes e arrancar os que já não tinham safa possível.

Depois fomos fazer umas compras – um toalheiro electrico para a nossa casa de banho que não tem janela, o que faz com que as toalhas nunca sequem, e calças para o Pedro que comprou uma série delas há uns meses e imediatamente a seguir perdeu montes de peso.

Depois de parar em casa para almoçar, fui buscar as análises que fiz a semana passada e parece estar tudo bem, apesar de ser algo suspeito o facto de dar exactamente o mesmo valor de hemoglobina nas últimas 3 análises.

Fomos fazer mais uma ecografia. O bebé tem mais de 3 quilos, ou seja, aumentou praticamente um quilo no último mês. Realmente pareceu-me que a barriga cresceu muito nas últimas semanas. De resto parece que está tudo normal e a questão dos pés continua em aberto porque nunca dá para ver bem.

Ao final do dia fomos à  consulta. Estavamos com esperança de marcar a data da indução mas estas coisas nunca são simples. As opções acabaram por ser já no próximo domingo, com 37 semanas e 1 dias ou no sábado seguinte, à s 38. Eu não queria tomar uma decisão destas baseada puramente na minha ansiedade e arriscar problemas respiratórios no bebé por ter nascido cedo demais por isso achei que o mais indicado seria no sábado, esperando mais uma semana. Ficámos mais ou menos assim e fui fazer o CTG. Demorou uma eternidade porque a enfermeira estava ocupada e passei uns 40 minutos numa posição muito pouco confortável, sem apoio lombar. O Pedro não esteve melhor porque teve de estar a segurar a sonda porque aquilo estava sempre a perder o sinal.

Quando terminámos a enfermeira disse-nos que estava tudo bem mas para voltar na quinta e fazer outro CTG e depois se decidia se a indução seria já no domingo ou se espera. É claro que eu e o Pedro percebemos coisas diferentes. Eu percebi que se fosse igual esperava-se e o Pedro percebeu que se fazia já porque o bebé está muito mexido o que indicaria que já tem maturidade suficiente. Passei o resto da noite muito nervosa. Não estava à  espera que fosse tão cedo e de repente uma série de coisas começaram a parecer urgentes, como acabar de arrumar o saco e limpar as coisas que faltam – aspirar as várias peças do carrinho de bebé, etc.

É claro que continuo a tentar convencer-me que é só à s 38 semanas e não há motivos para panico. Mas é um daqueles casos em que fico nervosa seja como for. Por um lado a espera está no fim e se correr tudo bem vou poder parar de ter medo do que pode acontecer antes do nascimento. Por outro lado tenho finalmente de enfrentar a fase seguinte, de tomar conta de um bebé, que é algo que nunca fiz e tenho medo de fazer asneira. Por muito que se leia sobre o assunto, aquele primeiro dia em casa vai ser complicado. Imagino-me sempre com o Pedro e o manual de instruções do bebé, como se fosse para montar um móvel, a seguir as instruções passo a passo. 🙂
E ando há tanto tempo com medo que este segunda fase nunca aconteça que só agora é que me atingiu a verdadeira possibilidade. Basicamente sinto-me como se estivesse grávida há 3 anos e que é uma coisa que nunca mais acaba. E por muito deprimente que parte desse processo tenha sido, pelo menos é familiar.

Ontem à  noite foi a vez do Pedro ter um ataque de energia e ir limpar mais umas coisas no quarto do bebé. Há duas noites que não consegue dormir. Acho que vai ser muito frequente daqui para a frente. Eu também não durmo muito bem mas é mais por causa das dores de costas e da articulação da anca. Pelo menos esses desconfortos estão quase no fim.

Hoje vamos fazer novo CTG e tentar descobrir qual o próximo passo. Se a indução for no domingo temos de estar no hospital por volta das oito horas e tenho de me preparar para a coisa demorar dois dias. Se for só no sábado seguinte podemos ter de ir ao hospital à  mesma no domingo para fazer mais um CTG e depois aguentar mais uma semaninha.

We’ll see.