Música

Escrevo música por diversão. Nunca pretendi ser particularmente boa nisso mas também nunca quis ter uma carreira musical, por isso duvido que interesse.

Durante anos, antes de haver blogs e Facebook, quando necessitava de expressar qualquer coisa que me perturbava, escrevia uma música. Era tão divertido que continuei a fazê-lo. Surpreendeu-me imenso conseguir inventar novas melodias de que eu até gostava e que passava os dias a cantar para mim mesma, até se tornar algo normal para mim.

Esta página serve para explicar como e porque faço música, para quem se interessar.

Começo com as palavras, normalmente só com uma ou duas frases, e depois canto essas frases de uma variedade de maneiras diferentes até uma melodia ou ritmo fazerem sentido para mim. Isto acontece muitas vezes no duche (provavelmente porque não tenho mais nada em que pensar, nem distrações – já tive que saltar para fora da banheira a meio do duche para ir gravar coisas antes de me esquecer). Depois sento-me ao piano e faço o trabalho mais complicado que é descobrir quais os acordes que encaixam e como tocar a coisa. Depois gravo e faço revisão das letras que por vezes são reescritas dúzias de vezes até fazerem sentido para mim. Outras encaixam logo à primeira, normalmente porque há algo muito específico que queria dizer.

O processo de gravação pode ser fácil ou doloroso, dependendo do tempo que passei a praticar a música antes de gravar, e também da complexidade da música. Sei o suficiente sobre tocar piano para saber que nunca serei muito boa a fazê-lo. Só comecei a tocar já depois dos 20 anos e até cheguei a inscrever-me numa escola de música a sério, mas aprender um instrumento requer devoção total e muito mais tempo e energia do que alguma vez estive disposta a dedicar-lhe. Estudei durante alguns anos e até consegui aprender algumas peças relativamente difíceis (para mim, pelo menos) mas nunca consegui tocá-las com muita confiança ou expressão. Decidi que estava feliz o suficiente por saber tocar uns acordes e outras coisas mais simples e continuei com as minhas musiquinhas.

Às vezes sinto que a música precisa de algo mais complicado e torturo-me a tentar decifrar o que isso será. Outras vezes sinto que não está bem mas não consigo perceber porquê, independentemente do tempo que passa a trabalhar na música e tenho de o aceitar ou esperar que alguém mais talentoso que eu algum diz goste da música e faça uma versão.
No que diz respeito à gravação, felizmente há software fantástico hoje em dia que ajuda a corrigir os nossos erros todos se não conseguirmos acertar com aquilo mesmo ao fim de 50 takes 🙂
Quando o piano está gravado, gravo a voz. Às vezes são mais 50 takes e nunca fica bem o suficiente mas se não me faz trepar as paredes cada vez que oiço a música, deixo estar. Tenho uma voz muito grave para mulher por isso ultimamente tenho andado a transpor muitas das minhas músicas para um tom mais grave,mais confortável para mim.

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Walking Forever

Escrevi esta música na faculdade. É sobre sonhos, tentar capturar aquele momento em que acordamos de manhã e ainda nos lembramos do que sonhámos e a lógica por detrás do sonho. Andava a ler Lewis Carroll e Anne Rice e a música acabou por ser um cruzamento entre a Alice a a Mekare com golfinhos lá no meio.

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1842

Esta é uma daquelas músicas que já teve imensas versões. A música sempre foi a mesma com apenas algumas alterações de tom e detalhes extra, mas a letra passava a vida a mudar. É uma história de fantasmas sobre um rapaz que se afogou num lago e só consegue comunicar com uma mulher chamada Claire, através dos sonhos dela. Ela ajuda-o a vingar-se de quem o matou mas quando se vai embora (ou morre, não sei muito bem porque o fantasma tem mais de um século) ele fica sozinho novamente e não consegue deixar de se sentir zangado e por isso continua preso ao passado. Comecei a escrever a história por detrás desta música mas nunca a terminei.

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Playground rules

Esta é fácil de compreender, acho eu. É sobre ser maltratado na escola pelos colegas. Passei um mau bocado no primeiro ano do ensino secundário graças a umas meninas mais crescidas que sentiam a necessidade de mostrar que eram grandes e fortes batendo e maltratando os mais novos. Isto foi muito antes de se falar de bullying no nosso país. Meti-me numas quantas lutas porque ficava furiosa e recusava-me a aceitar aquele comportamento sem me defender. Até hoje continuo a achar que é pouca a diferença entre um recreio de escola e pátio de uma prisão. Menos escovas de dentes afiadas, talvez.

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Dreams

A música chama-se “sonhos” mas na verdade é sobre sair de uma relação violenta e como essa violência deixa marcas e nos persegue durante muito tempo após a altura em que é suposto já nos sentirmos seguros. A imagem do Jack Nicholson no Shinning estava constantemente a vir à memória quando estava a escrever a música por isso deve ter influenciado o tema ligeiramente.

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Lust

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Rainy Days

Ia pela rua fora, para casa do meu namorado, quando começou a chover. Quando cheguei tinha os primeiros dois versos – música e letra.

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None of these things

Defino esta música como “mázinha brincalhona”. Gosto da introdução e adoro cantá-la por causa do ritmo das palavras. A minha frase preferida é ‘I’ll always be there for you, even if you don’t want me to’. Acho que resume o tom da música perfeitamente.

Letra

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Drama Queen

Esta música é sobre percepção – como as outras pessoas nos vêem e como nos vemos a nós mesmos, como as pessoas esperam imensas coisas que não podemos dar e como a honestidade nem sempre é recompensada ou até apreciada. Sempre senti que se podiam evitar imensos problemas nas relações se as pessoas se limitassem a dizer o que pensam. Musicalmente, fiquei muito feliz quando escrevi o piano dos versos. É repetitivo mas muito divertido de tocar.

Letra

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Song for a Friend

A letra foi escrita pelo meu marido em 1995. Gostei tanto dela que criei uma música para a acompanhar. A frase ‘I’d hate to find you in a bar’ faz-me sempre rir.

Letra

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Have a Nice Day

Só queria escrever uma música palerma e divertida. Há muitos anos que eu e o meu marido brincamos sobre termos de alguma forma chateado o deus das pequenas irritações e a música é sobre isso – todas aquelas pequenas coisas que nos podem estragar o dia ou um bom momento e sobre lutar constantemente para não deixar que essas coisas nos deitem abaixo.

Letra

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Your Face

Uma das minhas primeiras tentativas de escrever uma letra de música. É pouco mais do que um exercício de rima.

Letra

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Paper bag

Fico espantada com a quantidade de casais que conheci ao longo dos anos que quase se odeiam e de repente decidem casar-se como se isso fosse magicamente resolver todos os problemas. Uma vez que mulher nenhuma gosta de ouvir as palavras “não te cases com aquele gajo, é um idiota”, somos forçados a engolir as palavras, forçar um sorriso e esperar pelo melhor. Decidi então deitar os meus conselhos não solicitados nesta música em vez de fazer inimigos.

Letra

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Lullaby

Escrevi esta música em 2007, quando o meu filho nasceu. um dia estava a tentar adormecê-lo e fartei-me das músiquinhas do costume que não funcionavam de qualquer forma, por isso inventei uma nova. Também não funcionou mas eu gosto da música e ficou-me na cabeça desde então. Faz-me lembrar um bocado o “Swing Low, Sweet Chariot” mas se calhar sou só eu. Parece muito simples mas quando a fui gravar descobri que tinha algumas surpresas como saltar de 3/4 to 4/4 em alturas inconvenientes 🙂

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Singing

Se olharmos para a letra é óbvio que a música é sobre o fim de uma relação em que não há mais nada a não ser discussões há muito tempo e tudo o que falta é arranjar a coragem para sair. Nunca achei que fosse uma música triste porque às vezes as pessoas ficam presas num padrão que é familiar mas não lhes faz bem e por isso é difícil decidir que já chega. Mas conseguir terminar a relação, por mais difícil que seja, também pode ser um alívio e fazer-nos sentir mais leves, apesar da dor e do medo do desconhecido.

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Too Late

Quando escrevi esta música tinha a voz do Brian Molko na cabeça por isso, para mim, foi escrita do ponto de vista de um homem que está a observar e a falar sobre uma mulher que se calhar não consegue falar por si própria ou enfrentar a forma como se sente ou vê a vida. Mas como não toco guitarra e tive que cantar a música eu mesma, quando chegou à parte da mistura, o meu marido tinha uma visão completamente diferente da coisa e deu-lhe um ambiente muito mais Portishead. É um resultado muito diferente do que tinha imaginado inicialmente mas gosto bastante.

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