Como se faz uma aliança em ouro

A aliança é o anel mais básico que se pode fazer. Esta aliança básica pode depois ser trabalhada para ter diversos estilos diferentes: pode ser feita em fio redondo, quadrado, rectangular ou fios torcidos. Pode ser larga ou estreita, grossa ou fina. Pode ter a base direita e o topo arredondado ou vice versa. Podem-se aplicar pedras grandes ou pequenas, só na frente ou a toda a volta. Enfim, as variantes são muitas.

Vou descrever aqui o processo de construção de uma aliança básica em ouro.
Quando me casei escolhemos umas alianças muito finas. Eu gostava delas mas com os anos, estas alianças foram ficando deformadas. Resolvi então fazer umas novas. Usei o ouro das nossas e acrescentei a aliança da minha avó, com autorização da minha mãe. As peças de ouro passam de uma geração para a seguinte e incluir o metal de uma aliança de família tem um valor simbólico que acrescenta alguma carga emocional à peça.

Como eram alianças com uma única soldadura, foi fácil de limpar a solda. Aqueci para ver onde eram as soldaduras, serrei pela linha e limei um pouco de cada lado para eliminar os restos de solda.

Fundir ouro com solda pode dar mau resultado porque a solda contém outros metais que não pertencem à composição da liga de ouro (nomeadamente cádmio, que hoje em dia já é proibido mas que pertence à composição da solda de todas as peças de ouro com mais do que alguns anos). Para além disso, a solda baixa o toque do ouro e o lingote resultante pode ter mais poros ou até formar uma liga quebradiça e difícil de trabalhar. Quando não se consegue eliminar a solda, convém purificar o ouro antes de ser trabalhado.

Quando não temos metal para reciclar é necessário ligar o ouro. A liga de ouro em Portugal é de 19 quilates o que corresponde a 80% de ouro para 20% de liga. Os metais utilizados na liga são normalmente prata e cobre mas no caso do ouro branco a liga contém níquel ou paládio. Como há muitas alergias ao níquel, o ideal é ligar com paládio. O ouro branco é a liga mais difícil de trabalhar porque o metal é mais rijo e quebradiço e tem tendência para abrir fendas ao ser laminado, se não for recozido convenientemente.

A imagem acima mostra o que acontece ao ouro branco ao ser laminado quando não foi devidamente recozido.

Para quem quiser mais detalhes sobre os metais, aconselho a leitura do artigo “noções básicas sobre metais”.

Fiz um lingote a partir do ouro fundido. Para fazer um lingote é preciso derreter o metal num cadinho previamente coberto de tincal (borax). Depois aquece-se o metal até atingir o estado líquido e verte-se este metal derretido, sempre com a chama em cima para não arrefecer cedo demais, para um molde de lingote, geralmente em ferro.

A foto acima mostra lingotes de ouro rosa e ouro branco para outras alianças feitas da mesma forma. Como se pode ver, o ouro branco não é totalmente branco, especialmente ouro de 19K. Para ficar branco é necessário dar-lhe um banho de ródio após a construção do anel.

Convém que o ouro a fundir tenha um mínimo de 6 gramas para haver metal suficiente para trabalhar. Com o limar e polir há sempre perdas de metal, algumas delas irrecuperáveis, pelo que é preciso começar com mais metal do que o necessário para completar a peça. 1 a 2 gramas de perdas é normal. Algum do peso recupera-se sob a forma de limalha mas há sempre uma parte, especialmente durante o polimento, que se transforma num pó tão fininho que não se consegue captar, principalmente num pequeno atelier sem grandes máquinas de aspiração.

O lingote foi depois transformado em fio quadrado no laminador. Vai passando pelos rolos em sulcos cada vez mais finos até ficar do tamanho pretendido. Neste caso, como a quantidade de ouro era limitada, concentrei-me mais no comprimento que o fio precisava de ter para conseguir fazer duas alianças. Parei quando obtive um fio com 9 cm de comprimento.

Para calcular o tamanho de fio necessário para fazer um anel utiliza-se Pi. Mede-se o diâmetro interno do anel e multiplica-se por 3,14. Se o anel for muito grosso é necessário acrescentar a grossura do fio à medida final.

Convém geralmente fazer o anel um pouco mais pequeno do que o tamanho pretendido porque ao martelar para o tornar redondo e ao retirar algum metal quando se for limar e polir, ele vai alargar ligeiramente.

Laminei o fio quadrado em chapa para ficar rectangular. Parei quando a grossura chegou a 1 mm. Fiquei com um fio de 1x3mm, que já é um tamanho muito bom para uma aliança.

Enrolei o fio à volta a adrasta de anéis e serrei.

Soldei as duas alianças. A primeira imagem mostra um anel em prata depois de soldar. As duas imagens seguintes mostram um anel em ouro, antes e depois de soldar. Gosto de amarrar os anéis com fio de ferro antes de soldar para impedir que abram com o calor, se o metal tiver alguma tensão criada ao formar. Também se pode recozer o metal antes de soldar mas como isso requer um branqueamento extra e mais tempo perdido, costumo saltar esse passo quando possível.

Para soldar é preciso que o metal esteja limpo e tem de se aplicar tincal à zona da união. O tincal impede a oxidação e permite que a solda corra. Soldar ouro é um pouco mais fácil do que soldar prata porque o calor pode ser direccionado mais para a zona a unir. Não é preciso aquecer toda a peça por igual, como com a prata. Isto acontece porque a prata é melhor condutora de calor do que o ouro.

Depois limei até ficar tudo lisinho e com as arestas ligeiramente arredondadas. Verifiquei o tamanho na adrasta e dei umas marteladas com o martelo de cabedal até ficar tudo redondo. Se a adrasta for cónica, como é costume ser, convém virar o anel e dar umas marteladas do outro lado também, para manter o anel direito em vez de conformar à forma cónica da adrasta.

Por fim lixei e poli as alianças até ficarem a brilhar. Uso lixa de grão 400 para tirar os riscos e depois lixa de grão 600. A partir daí passo para o tripoli, que é um sabão de pré-polimento castanho. Para alianças uso bicos de feltro cónicos ou cilíndricos para polir no motor de suspensão Foredom. A seguir ao tripoli passo para o sabão de polimento verde e por fim o vermelho, ou rouge. Deve-se usar um bico de feltro diferente para cada sabão de polimento e devem ser marcados ou guardados em saquinhos juntamente com a barra de polimento correspondente para se saber qual se deve utilizar da próxima vez.

O ouro é mais fácil de polir do que a prata porque não fica geralmente com a mancha do óxido de cobre que na prata causa umas manchas cinzentas feiosas e difíceis de eliminar.

E pronto. Assim ficámos com novas alianças a partir das antigas.

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