o valor é relativo

Uma das coisas mais estranhas que acontecem quando se está a tentar engravidar é o poder de transformar algo em que normalmente não pensamos no centro do universo, algo de que normalmente nos queremos livrar o mais rapidamente possível em qualquer coisa verdadeiramente preciosa. Para quem não percebe minimamente o que estou a dizer, clarifico: estou a falar de urina.

A gravidez há muito que deixou de ser um processo natural, que acontece de forma imprevista. Desde o aparecimento da pílula que as mulheres passaram a conseguir controlar, até certo ponto, quando querem engravidar, permitindo-lhes escolher alturas da sua vida em que se sentem preparadas para o fazer. O sexo passou a ser mais por gosto do que para procriação, tal como já era para os homens que não tinham necessariamente que acarretar as consequencias do acto.

Para as control freaks, uma gravidez desejada passou a poder4 ser planeada ao mais infimo pormenor, contando os dias que faltam para ovular ou para a data prevista da próxima menstruação. Isso não significa sucesso porque, como já apredi da pior forma possível, a natureza tem sempre forma de nos estragar a vida e de nos retirar todo o poder, controlo e vontade de viver. No entanto, a partir do momento em que se páram os métodos anti-concepcionais, mesmo para quem diz que não pensa nisso e que será quando for, há sempre um pensamento lá no fundo que nos lembra ocasionalmente para fazer um teste porque nunca se sabe. Ou porque estamos mais cansadas, ou porque já passou mais de um mês e não há sinais da menstruação, seja pelo que for.

Decidi recentemente que ia tentar engravidar novamente, e mesmo sabendo  que anteriormente tive algumas dificuldades porque só tinha ovulação de 3 em 3 meses e que o mais provavel é que o mesmo voltasse a acontecer, convenci-me que agora podia ser diferente.

Armei-me com o que podia, comprando testes de ovulação e gravidez e fiz as minhas contas. E foi aqui que começou aquela coisa estranha que mencionei no principio. A certa altura, quando me levantava a meio da noite para ir à casa de banho não conseguia evitar pensar ‘mais um dia ou dois e tenho de me lembrar de fazer o teste’. Quando chega a altura certa do mês e sou acordada pelo Tiago, vou fazer xixi e penso ‘bolas, devia ter feito o teste’.

Tornou-se quase obsessiva esta necessidade de preservar  a urina, como forma de tentar perceber o que se passava com o meu corpo. O acto de descartar aquele líquido inútil, que era feito sem qualquer pensamento para além do alívio da bexiga passou a ser feito reticentemente e muitas vezes adiado até ter a certeza que não vai ser necessário para outros fins. Ao fim de algum tempo começou a parecer que estava a deitar um balde de ouro pelo cano abaixo cada vez que sentava na sanita enquanto simultaneamente tinha consciencia do absurdo dessa sensação.

Para piorar a situação, os testes de ovulação que comprei estavam estragados. Não sei se apanharam demasiado calor no armazém da loja ou se a marca não presta mas numa caixa de 5 apenas um deu a linha de controlo o que quer dizer que mais valia ter deitado o dinheiro fora. Para referencia futura, a marca dos testes era PiC e foram comprados na Parafarmácia do Pingo Doce, na estação de Metro do Cais do Sodré um dia que passei por lá.

Depois de ter que me lembrar de fazer o teste, de andar há dias a obcecar sobre fazer aquilo no diz certo, ter um fracasso destes foi bastante frustrante. Acabou-se logo aí o planeamento e a passibilidade de ter algum controlo sobre a situação ou o meu corpo. Passou a ser ‘ao acaso’.

Pelo caminho tive duas ou 3 perdas de sangue pouco significativas que não eram suficientes para ser consideradas menstruação. Por vezes tenho uamas menstruações quase inexistentes, quando a anemia está pior porque o corpo poupa o sangue que tem, mas mesmo assim duram mais do que 12 horas, que não foi o caso.

Quando chegou a altura fiz um teste de gravidez, que deu negativo, e daqui para a frente vou continuar a fazer um por semana mesmo só porque sim. Já não há cá ‘para sair uma menina’ ou seja o que for porque não tenho qualquer forma de saber o que raio se passa com o meu sistema reprodutor. Vou marcar uma consulta com o meu ginecologista, vou ter de esperar mais dois ou três meses para ver o que acontece e provavelmente terei de voltar a tomar a mesma medicação da outra vez para tentar provocar uma ovulação.

Já tenho a confirmação que vai ser novamente um processo longo e preciso de paciencia. Vamos ver se não mudo de ideias pelo meio.

One Reply to “o valor é relativo”

  1. Bom… se há coisa que aprendi foi que estas coisas geralmente acontecem quando menos se espera. Da primeira vez stressei imenso e media temperatura todos os dias, bem uma complicação e eu até sou super certinha, daquelas que acerta o relógio pelo período.
    Temos a mesma anemia, mas ao contrário de ti nunca tive esses períodos pequenos, pelo contrário, temos umas descargas enormes e dura montes de dias, geralmente uns 5 com grandes perdas e depois mais outros tantos com spotting e perdas pequenas.
    Boa sorte, e tentem não pensar muito no assunto.

    Quanto aos testes de ovulação, eu compraria online, procura no ebay, muito baratos e geralmente bastante fiáveis. Eu comprei testes de gravidez e estavam todos bons.

    ***

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